«Art becomes a sort of experimental condition in which one experiments living» (John Cage)
Arte Povera é um termo classificatório de obras e artistas contemporâneos oficialmente existente desde 1967. É um conceito fluido, usado para alguns (um número variável de) artistas que partilham uma atitude pobre.
A pobreza em causa – inspirada numa ideia específica de teatro (1965) proposta por Jerzy Grotowski – diz respeito à valorização do que é contingente e necessário, e não tanto à natureza dos materiais usados nas obras.
Inicialmente instável, o conceito – criado por Germano Celant (G.C.) – é aplicado a artistas italianos e não-italianos (estes últimos incluídos, posteriormente, por exemplo, na Arte Conceptual e Land Art). A partir de 1985, com G.C., designa um fenómeno italiano.
G.C. considera a Arte Povera como um «projecto de intervenção criativa», não-rígido e não-autoritário, um modo de vida – não-sistemático e não-consumista – baseado na osmose com os ambientes externos. Pretendia criar mais a tensão do que um sistema. Ser uma acção livre e imprevisível por relação às expectativas convencionais.
A prática da Arte Povera privilegia a ligação ao contexto e ao momento histórico. É uma busca de relações vitais e dialécticas com a realidade num contexto de agitação política e social. Segundo G.C., os acontecimentos sociais e políticos dos anos 1966-1969 exercem uma influência determinante na prática de Arte Povera – a qual consiste em tudo englobar e na completa participação do sujeito individual na trama da história.
Enquanto reacção especificamente europeia à Arte Pop e Arte Minimal (ao seu processo modular e estandardizado), a Arte Povera recusa o puritanismo e a homogeneização. As diversas obras de Arte Povera partilham certas características específicas: a referência à domesticidade, comunidade e habitat; à escala humana; à estratificação de referências culturais diversas; a rejeição de um estilo coerente e de uma assinatura artística; a recusa da distinção entre literal e metafórico, natural e artificial, vivo e inerte, através da transformação da instalação em ‘teatro pobre’ onde natureza e cultura confluem.
A Arte Povera contraria a frieza anónima do universo industrial jogando com diferentes materiais, diferentes técnicas, diferentes ritmos e modalidades temporais. Relaciona-se com aquilo que é esparso, heterogéneo e paradoxal.
Todas as formas, materiais, ideias e meios são legítimas e estão disponíveis. Acreditando unicamente na sua experiência pessoal, o artista usa-se a si próprio como um material continuamente moldável. O artista camufla-se com o ambiente. Rejeita os papéis de profeta e mestre cultural. Elege a experiência directa – ao invés de representar a aparência externa da natureza e da vida. Na relação de total disponibilidade com (e escuta de) o mundo, o artista estende o reino do sensível. Animais, vegetais e minerais ingressam no mundo artístico. O artista é atraído pelas respectivas possibilidades físicas, químicas e biológicas. Tal como o homem, estão sujeitos a processos comuns de mudança. O artista-alquimista usa e apresenta materiais elementares, forças e processos.
Uma peça de Giovanni Anselmo (1934-2023), Sem Título (1968) – também conhecida por escultura (estrutura) que come alface – consiste na aglomeração de dois polidos paralelepípedos de granito. Ao maior (uma espécie de plinto) é atado um menor mediante um fio de cobre. Os dois paralelepípedos entalam uma alface fresca (ou um pedaço de carne sanguinolenta). Na base do maior surge – por vezes – um montículo de areia.
Um mineral e um vegetal. Um objecto extraído do solo e um objecto cultivado no solo. Um objecto de longa duração e um objecto perecível, efémero. Um espaço cultural e um espaço natural que se confrontam, com seus ritmos temporais desajustados e trocando alguns dos seus atributos. Contraste entre uma matéria sólida, duradoura, compacta e uma matéria mole, orgânica, efémera.
A situação da estrutura comedora é temporariamente estável. Enquanto se mantiver fresca a alface, há atrito entre as duas peças que a comprimem. O atrito necessário que as mantém em equilíbrio. Uma vez seca, a pedra menor desliza ao longo da pedra maior. A sua queda pode ser amortecida pelo montículo de areia. Dado não ser imutável, a peça pressupõe o reabastecimento diário de alface, bem como o reposicionamento da peça menor. Carecendo de uma recomposição cíclica para existir, a peça exige o nosso apoio e compromisso renovados. Para viver, a peça – em relação com a nossa vida – exige o nosso cuidado.
Uma peça de G. Anselmo, Torsão (1968), está patente em «May I Help You?» Posso Ajudar? – Artes e Artistas da Década de 1970 em Diante (Centro Cultural de Belém, Museu de Arte Contemporânea). O espectador interessado tem a possibilidade de estar defronte de (e sentir) uma obra que captura e acumula a energia gerada pelo feixe de forças conflituantes entre materiais.
Um tecido torcido (elemento central) é fixado na parede por meio de um anel de ferro e retesado por uma pesada barra de ferro, inserida na parte mais baixa. A torsão máxima do tecido é mantida pela barra de ferro, apoiada num ponto da parede.
Duas obras que evidenciam que tudo o que está vivo existe em relação. O que está vivo não pode manter-se intacto no tempo. Cada obra nada mais é do que uma prova de vida e o vestígio de (uma plena e livre) participação no mundo.