Levanto-me pela manhã, ligo o telemóvel e deparo-me com a habitual tonelada de mensagens nos grupos do WhatsApp. A grande maioria consiste em reencaminhamentos de vídeos curtos — uns parvos, outros provocadores, estúpidos ou até ordinários. Uns poucos, menos ofensivos, são enviados por quem achou que eu gostaria de os ver, como se a oferta atual de conteúdos fosse escassa. Perco meia hora a apagar lixo para libertar memória antes de conseguir, finalmente, saborear o pequeno-almoço matinal.
Terminada a refeição, ligo a televisão. Perco mais uns minutos em zapping por acidentes, desastres, manifestações, crimes e política. Sento-me depois à secretária, ligo o computador e abro o correio eletrónico. Surge nova avalanche: publicidade barata, resumos de jornais, convites para tudo e mais alguma coisa e ofertas generosas de heranças ou fundos fraudulentos. Trazem os habituais links onde um clique sai caro a quem se deslumbra pela riqueza fácil.
Como o telemóvel tem de ficar ligado, continua a vibrar com novas notificações de WhatsApp e chamadas de números desconhecidos. Muitos já surgem identificados como SPAM, outros mostram apenas os dígitos. Atendo alguns destes, receando perder algo importante, mas a regra é ter de explicar ao interlocutor, com a educação possível, que não estou interessado nos produtos que me tentam impingir.
E o dia decorre assim, num ciclo contínuo. Note-se que não tenho conta no Facebook, no Instagram ou outras do género. Ainda assim, essa ausência de nada serve, pois o lixo e a propaganda política acabam sempre por me alcançar através de reencaminhamentos de terceiros.
Há quem aprecie viver neste mundo virtual, intenso e dinâmico que, a meu ver, se revela especulativo e depressivo. Não é o meu caso. Sinto uma enorme nostalgia do tempo em que a televisão só emitia à noite, com um único telejornal, e em que apenas a rádio nos acompanhava ao longo do dia. Tenho saudades dos semanários em papel e, em especial, do Expresso — o único que lia. Era o meu ritual de sábado de manhã: folheá-lo numa esplanada, calmamente, com um café e um croissant por companhia.