Home Cardus Edição 147, julho 2025

ARTE E O TEMPO

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Lucidity & Intuition: Homage to Gertrude Stein, 2011
Susan Hiller, Dedicado Ao Desconhecido, Culturgest de 15/3 a 22/6/2025

Carlos Ribeiro escreve de acordo com a antiga ortografia

INVESTIGAÇÕES COM FANTASMAS

A retrospectiva sobre a obra de Susan Hiller (1940–2019) aconteceu na Culturgest entre 15 de Março e 22 de Junho de 2025. O título da retrospectiva, Dedicado Ao Desconhecido, é duplamente acertado: não só sintetiza, celebrando, a senda criativa da artista como, ainda, mediante o anúncio de uma vocação individual, evoca a dimensão desafiadora e inventiva da arte enquanto forma de conhecimento própria. O objecto da supracitada dedicação artística (ou tributo) respeita a aspectos de uma cultura (incluindo: linguagem, subconsciente e sobrenatural) identificados com o domínio do inexplicado (oficialmente), estranho, ignoto, oculto, esquecido ou depreciado. O processo criativo é desencadeado, frequentemente, por ideias, acontecimentos ou objectos ignorados ou esquecidos. Os meios de expressão adoptados são variados: pesquisas experimentais (tal como Dream Mapping, 1973, concebido para um pequeno grupo. Implicando: sonhar-se o sonho, partilhá-lo e descrevê-lo visualmente por mapas / diagramas), desenho, pintura, fotografia, escultura, instalações audiovisuais.

Dedicated to the Unknown Artists (1972–76) é o título de uma obra baseada na ordenação, classificação e referenciação geográfica de materiais culturais populares. 305 postais – representando o rebentamento de ondas em costas inglesas – são organizados por categorias; geograficamente referenciados – o local de cada imagem é assinalado num mapa; minuciosa e individualmente analisados numa tabela informativa. Veiculando uma espécie de «sublime doméstico» (Susan Hiller), as imagens colectadas permitem a Susan Hiller (S.H.) resgatar uma produção anónima, feminina, a cargo de artistas e trabalhadores que pintam, fotografam ou retocam manualmente as imagens dos postais.

Belshazzar’s Feast, the Writing on Your Wall (1983–84) é uma instalação multimédia – combinando vídeo, fotografia a cores, desenho, som e mobiliário interior – cuja dimensão e arranjo variam consoante a configuração e dimensão dos espaços expositivos. Apesar dos ajustes que, ao longo da sua vida, S.H. realizou em Belshazzar’s Feast e das diferentes versões criadas – por vezes, simultâneas –, o fulcro da instalação é o monitor de televisão por onde passa, em loop, o filme de uma fogueira. Belshazzar’s Feast faz referência a um episódio bíblico – e, também, a uma pintura homónima (1636-38) de Rembrandt: à vã tentativa do rei babilónico, Belshazzar, para decifrar a mensagem divina (punitiva) que tinha aparecido, subitamente, na sua parede. Decisiva para o início do uso do vídeo e do filme, esta instalação esteve patente numa versão recente – denominada Bonfire (2015): uma torre de monitores de vídeo, ardendo em simultâneo e sem parar. Uma versão que potencia o prazer háptico – induzindo um estado de entorpecimento e devaneio no espectador.

O impulso para a criação de Belshazzar’s Feast foi a leitura de notícias (em jornais) sobre testemunhos de aparições espectrais e mensagens misteriosas em aparelhos de televisão, após o final das emissões televisivas. As placas cerâmicas, existentes em Postman’s Park (Londres), comemorando pessoas comuns, cujos actos de heroísmo lhes trouxe a morte, estão na origem da instalação Monument (1980-81): um banco de jardim, com headphones para a escuta individualizada de um monólogo da artista, gravado, acerca de questões relacionadas com a morte e o heroísmo, a memória e a representação; e, nas costas do espectador sentado, 41 fotografias das ditas placas comemorativas. A descrição e tradução de experiências visionárias (avistamentos de ovnis) resulta numa peça sonora (uma cacofonia de vozes, difundidas por 350 altifalantes, suspensos) sobre a visão do invisível: Witness (2000). Os testemunhos de experiências próximas da morte estão na base da instalação vídeo multicanal, Channels (2013), na qual vozes relatam, em várias línguas, experiências com a morte.    

A revisitação de momentos modernistas conduz S.H. a realizar obras de homenagem a criadores modernos (Y. Klein, Gertrude Stein, J. Beuys) que reconheceram (ou não) as suas ligações a cultos, disciplinas e teorias espirituais do oculto: levitação, xamanismo, espiritismo, escrita automática, visão da aura, e etc. A predilecção de S.H. por zonas liminares de difícil descrição e tradução em termos da linguagem e cultura dominantes – como as experiências visionárias – é motivada pela abertura a (e menos pela afirmação de) um campo válido de atenção. O não-dito, o inaudível, o invisível e o aparentemente incoerente permitem: quebrar a linguagem dominante e questionar as dimensões do visível.