A exposição Time Stands Still reúne uma parte significativa da produção fotográfica de Jeff Wall (1946) do período compreendido entre 1980 e 2023. Entre finais de Abril e 1 de Setembro de 2025, o público tem a oportunidade de desfrutar de (e deslumbrar-se com) as 63 obras apresentadas no MAAT. Além das celebradas fotografias retro-iluminadas, a exposição inclui imagens a preto-e-branco (impressões em gelatina e prata) e imagens a cores (impressões a jacto-de-tinta sobre papel fotográfico), produzidas a partir do final dos anos 1990. Na sua maioria, as imagens de Jeff Wall (J.W.) são entidades únicas, embora existam alguns dípticos e trípticos, mais frequentes nos últimos anos.
O envolvimento do artista com a fotografia remonta à década de 60. A partir de meados da década seguinte, o artista explora uma outra forma de fotografar e realiza as suas grandes fotografias a cores (transparências), as quais apresenta em caixas de luz (um suporte de imagem conotado com a publicidade urbana). Propõe uma versão de ‘fotografia plástica’ (Dominique Baqué) ou ‘pictórica’ – um registo fabricado, no extremo oposto de uma ‘fotografia pura’ enquanto registo imediato ou reflexo bruto da realidade. A integração da fotografia no continente das artes plásticas (anos 60-70) veio abrir a possibilidade de – participando em – a hibridização generalizada dos meios na prática contemporânea das artes plásticas e na desaparição de separações entre os diferentes campos de produção. Se a fotografia actual pode servir de referência (modelo) a certas artes, estas últimas podem tomá-la como referência. Divergindo de uma concepção documental (jornalística) da imagem fotográfica enquanto vestígio ou fragmento de um acontecimento subtraído do fluxo da vida e fixado (instante congelado) numa única imagem, J.W. elabora as suas reconstruções fotográficas da realidade, superando os limites entre pintura, fotografia e cinema (enquanto meios). O artista prefere falar de “cinematografia” a propósito das suas imagens – resultantes de um demorado processo de encenação e composição pictórica. Com o termo refere-se a técnicas habitualmente usadas na realização de filmes: colaboração com performers (não necessariamente actores profissionais); técnicas, equipamentos e procedimentos fotográficos associados; abertura a diferentes temas, maneiras e estilos.
Empenhado em fazer valer a liberdade artística na prática fotográfica através de modos alternativos de fazer imagens e de uma relação aprofundada com os meios, assuntos-temas e materiais (reconhecendo como válido qualquer ponto de partida para a realização de uma imagem, seja uma observação acidental, um sonho, uma memória, uma história lida ou ouvida de alguém), J.W. explora a divergência entre a câmara e o momento, o intervalo expandido entre observação e feitura da imagem. O processo de trabalho é plástico e lento. O tempo dilatado acarreta a repetição, mediante a qual os performers deixam de sentir a urgência da tarefa e passam, a certa altura, a agir naturalmente no cenário inventado como se estivessem numa situação real. Além da atitude e visão do artista sobre coisas, personagens e cenas, as imagens documentam a mudança de comportamento operada.
Emancipadas do facto visual, as imagens soltam-se da contingência (que opõe o material do mundo ao sujeito). Um aspecto inerente da cinematografia: as coisas não precisam realmente de existir, ou ter existido, para aparecer na imagem. Não há diferença entre um gesto captado por acidente e um gesto planeado. O mundo torna-se em matéria-prima para a imaginação. Comportando uma dose de planeamento e imprevisibilidade, os seus quadros fotográficos – elaborações e reinvenções das relações históricas entre fotografia e pintura – são compostos como as pinturas clássicas, enquadrando um espaço unitário e homogéneo. A fotografia está intrinsecamente ligada a todas as tradições figurativas – anteriores à sua invenção e à arte moderna – enquanto mecanização da tradição pictórica renascentista e produção automática de imagens em perspectiva (quadros). O tamanho da imagem determina e precisa a relação espacial do espectador com (o espaço plástico de) a imagem. J.W. joga com a tensão (e o fio ténue) entre realidade e ficção, a magia do improvável e a aparente normalidade – reforçada pelas possibilidades da montagem digital.