Carlos Ribeiro escreve de acordo com a antiga ortografia
“[…] As casas que eu fazia em pequeno / onde estarei eu hoje em pequeno? / Onde estarei aliás eu dos versos daqui a pouco? / Terei eu casa onde reter tudo isto / ou serei sempre somente esta instabilidade? / As casas essas parecem estáveis / mas são tao frágeis as pobres casas / Oh as casas as casas as casas […]” (Ruy Belo, “Oh as casas as casas as casas”)
Terminou no passado dia 30 de Março, no Centro de Arte Moderna (CAM) Gulbenkian, uma mostra de obras de Carlos Bunga (1976). Ocupando várias áreas do CAM (átrio, nave, galerias laterais e jardim circundante), a exposição Habitar a Contradição inclui obras passadas e recentes de Carlos Bunga (CB) em diálogo com uma selecção de obras da coleção do CAM.
No exterior, uma estrutura arquitectónica pré-existente é renomeada: Beijómetro. As cadeiras verdes, metálicas, são elementos ao dispor dos visitantes. Ao usá-los e deslocá-los, contribuem para questionar a separação de interior e exterior.
Esculturas de vários corpos de trabalho estão agrupadas no átrio. Algumas, fazendo lembrar estruturas improvisadas, vulneráveis, estão dispostas sobre tapetes pintados. Intervencionados com tinta pastosa, os tapetes são transformados em gretadas superfícies pictóricas e objectuais (admitindo posições e combinações várias). Outras pinturas sobre caixas de cartão (na galeria lateral) são monocromias turbulentas, superfícies enrugadas, com elementos colados, escondidos sob a tinta gotejante.
Na Nave do CAM apresenta uma das suas maiores instalações, Bosque (2025): formas cilíndricas construídas com cartão e fita adesiva, evocando troncos de árvores ancestrais ou colunas arquitectónicas (dóricas). Mais estreitas ou mais largas, pela sua disposição espacial, geram várias possibilidades de percurso. E de refúgio, também – quando o espectador encontra becos sem saída ou acede a uma zona interior de uma delas por meio de um corredor espiralado.
O cartão é um material resistente e versátil. Ubíquo em embalagens, é resgatado por pessoas que vivem na rua para erigir abrigos temporários (em vãos de escada, portas de edifícios), recantos de uma certa intimidade e protecção. Na arte contemporânea: lembremo-nos dos relevos de parede, Cardboards (1971-1972), realizados por R. Rauschenberg a partir de caixas encontradas, recorrendo a corte, dobragem, agrafos e montagem; em alternativa, das reconstruções de casas em cartão por Manfred Pernice.
Outras obras de CB (escultura, fotografia e vídeo) estão distribuídas em espaços autonomizados na nave e nas galerias do CAM – dialogando com obras de outros autores da colecção do CAM. Das secções autónomas, na nave, destacamos Nómadas e Maternidade. Respectivamente: a série de figuras (crianças) em madeira, multi-raciais, inter-espécies e sem género – criaturas errantes, trespassando espaços e paredes; algumas, humanas ou animais – erectas, deitadas ou fazendo o pino – cujas cabeças são substituídas por casas ou representações de lúdicas construções de areia (castelo ou forte); as fotografias ampliadas da mãe do artista, cuja indescritível coragem na vida a não fez sucumbir a factos adversos.
Numa das secções autonomizadas, CB apresenta uma minúscula maqueta de uma casa pré-fabricada e as fotografias inéditas das suas divisões: Casa n° 17, 2002. Uma espécie de retrato da mãe e lembrança da demolida casa de infância.
A Minha Primeira Casa Foi Uma Mulher, 1975 (2018) é um desenho que representa uma mulher grávida, cuja cabeça é uma casa rústica africana. Uma casa que (ao invés de Femme-Maison de Louise Bourgeois) não constrange a mobilidade física do corpo. No ventre da figura transparece um selo, com uma figura masculina e a inscrição “Portugal Colonial” – a simbolizar uma realidade histórica, política e geográfica. Entre o ventre da grávida e a entrada para o interior da casa: um espaço de circulação. Se Luca Argel canta que o nosso Primeiro Mar fica dentro do corpo de uma mulher, CB mostra que a mãe (então grávida dele) é a nossa primeira casa – enquanto lugar de refúgio, repouso, regresso e reflexão.
O tema da casa está presente em muitos artistas contemporâneos. Por exemplo: as células de Absalon, ascéticas, dimensionadas para um único corpo; a casa sinistra e desviante de Gregor Schneider, tornada em labirinto, cujas divisões mudam de lugar ou se multiplicam, através de um constante processo de transformação; as múltiplas configurações da casa, nas suas formas, metáforas e evocações, em Pedro Cabrita Reis ou Carlos Nogueira.
Os espaços interiores estão a desaparecer. Há uma perda da dialéctica da casa, do lar, do jogo interior-exterior. Dois vídeos encenam essa dialéctica. Se num deles, o artista abre um zip na tela para entrar (e depois fechar-se) num refúgio exíguo e precário; noutro, em Parede (2001), a busca de evasão leva-o a demolir a parede.
A fase de destruição de Bosque assinala a centralidade da performance na sua prática multidisciplinar. Com criteriosos cortes, reorganiza a instalação por via de uma controlada derrocada. A destruição é assumida como uma faceta criadora; a ruína, como um aspecto da transformação contínua. Ocorre-me dois acontecimentos míticos: a abertura de uma clareira na floresta e a figura de Sansão. A precariedade e a impermanência são valorizadas. O redesenho dos lugares não será a forma de contrariar a circularidade de origem e retorno, impedindo que o apego espacial se torne em desejo de enclausuramento e posse? E, assim, a viagem, a compulsão da errância, não se torna separada da compulsão de retorno à base (caverna, toca, território tribal, porto)?
Veja o vídeo onde o artista Carlos Bunga e o curador Rui Mateus Amaral exploram as dimensões da obra “Bosque” (2025) aqui.