Carlos Ribeiro escreve de acordo com a antiga ortografia
“[…] I think with my eyes and ears / I think with my hands, my feet, my nose and mouth […]”
(Anna Maria Maiolino, “One Time (Once)”, 2009)
Anna Maria Maiolino (1942) expõe na Galeria MATT até 31 de Agosto: Terra Poética. O período de produção do conjunto de obras expostas abrange cinco décadas: 1975-2025.
Anna Maria Maiolino (AMM) tem desenvolvido uma obra multifacetada: desenho, gravura, fotografia, vídeo, escultura, performance, instalação e poesia.
Na emblemática performance Entrevidas (1981), perante uma audiência apreensiva, a artista caminhava descalça, de olhos fechados, numa rua de S. Paulo, por entre ovos dispersos pela calçada de pedra. Originalmente, uma metáfora da ditadura militar brasileira. A reactualização posterior desta performance, renomeada “Ka”, acontece com a participação de um actor (ou – como no MAAT – de colaboradores) e a incorporação do gesto de braços levantados. O hieróglifo do Antigo Egipto para os dois braços levantados simboliza a força vital, o espírito e o abraço. Em contextos contemporâneos, os dois braços levantados significam rendição em situações de guerra. AMM reinterpreta-os, à luz do Antigo Egipto, como um apelo poético ao desarmamento e à paz.
Na rampa de acesso à Galeria Oval, o visitante depara-se com mais de uma centena de desenhos – intitulados Tempestade de Ideias, datados de 1990-2025 –, fotografias (série Foto-Poemação) e esculturas (peças de parede: penduradas como imagens, mas funcionando como objectos, protuberâncias no campo visual do espectador). Evidencia-se o valor estruturante do desenho no pensamento visual de AMM, consubstanciando-se em esboços, anotações, estudos, hipóteses de possíveis tipos de peças, improvisações formais, rabiscos, derrames e escorridos de tinta sob o efeito da gravidade.
Na Galeria Oval: objectos moldados manual e/ou mecanicamente, posteriormente fundidos em diferentes materiais (argamassa de cimento, gesso, ligas metálicas); várias esculturas em argila crua, produzidas in situ, na sequência da série de instalações “Terra Modelada” (desde 1993, sendo que a actual apresentação da série é tida por ser a mais extensa). Homenagem ao trabalho humano, “Terra Modelada” realça os valores de plasticidade, elasticidade, sensualidade aliada ao toque da mão e fisicalidade do fazer manual (baseado na acção, e não na linguagem).
As peças trazem a impressão da mão, as suas marcas; despertam o sentido táctil das coisas – firmeza, textura, rotundidade, peso, volume e qualidades orgânicas.
A mão enquanto ferramenta humana inaugural vem associada à ideia de uma matéria primordial – não viemos nós do barro? –, encerrando múltiplas formas em potência; e, ainda, ao início de tudo (infância do indivíduo e infância da humanidade).
O trabalho manual realiza o poder da posse e transformação do existente; da criação (e da sua renovação) traduzida em invenção de formas e invenção de matérias. O mundo transforma-se, moldado às necessidades humanas, reais ou imaginadas. A mão é, nesse sentido, artesã e alquimista; foco de um tipo de conhecimento pessoal, tácito, inscrito fisicamente sem componente intelectual, de competências adquiridas através da demonstração e afinadas pela prática.
Formas básicas, iguais e diferentes, criadas com as mãos, surgem da repetição de gestos simples. De uma repetição não-mecânica, que supõe o único em si. Tal como no dia-a-dia, a ordem incorpora o acidente (dom do acaso). A artista concentra a sua atenção em tarefas elementares e arcaicas, inaugurais, labores e técnicas (vocabulário do primeiro ceramista: fazer rolos, perfurar, fazer côncavo, enrolar, dividir, acumular). A mão dá forma, amassa, estende, enrola, divide. Para que a argila endureça, sujeita-a ao fogo. Ou, então, deixa-a a secar, para que nela surjam fendas e fissuras. As formas traem afinidades casuais ou inevitáveis com o corpo e a natureza. Os segmentos autónomos da escultura trazem a possibilidade de acumulação e montagem em função do espaço.
Assemelhando-se a uma sucessão de cortes longitudinais de um terreno esburacado – ou a secções de erodidas paisagens miniaturizadas –, um conjunto de peças montadas sobre plintos metálicos, Outros, deriva de um jogo com o vazio e o positivo. Algumas peças incluem formas de frutas, partes de corpos, fósseis. E aludem a processos de petrificação.
Saindo da Galeria Oval e subindo a escadaria, algumas peças tridimensionais de parede (série Novas Paisagens).
A actual mostra permite relevar a consistência de uma obra criada em torno de formas arquetípicas – ovo, fio e cheio / vazio – declinadas em diferentes matérias e formas de expressão. Desde o ovo (figura da criação, geração e fragilidade) presente na performance aludida, passando pela reversibilidade de opostos (positivo/negativo) até ao fio (figura de comunicação) que liga três mulheres entre si, de gerações diferentes, através das suas bocas (imagem da série Foto-Poemação que dá início a Terra Poética).