Home Cardus Edição 151, novembro 2025

ARTE E O TEMPO

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Acredito em Tudo | I Believe in Everything

Rui Chafes

GALERIA FILOMENA SOARES, em Xabregas, até 15 de Novembro


Carlos Ribeiro escreve de acordo com a antiga ortografia

O INVISÍVEL DESAFIA (SEMPRE) O VENTO

«Nós somos filhos da época, / a época é política. […] Os temas que abordas têm ressonância, / o que calas tem expressão / de um modo ou outro na política. // Passeias pela floresta / e dás passos políticos / num chão político. […] Não tens sequer que ser um ser humano / para adquirires significado político. / […]» (Filhos da época de Wislawa Szymborska)

Rui Chafes (1966) expõe na Galeria Filomena Soares, em Xabregas, até 15 de Novembro.

Título da exposição: Acredito em Tudo.

Um agrupamento de peças verticais, integralmente negras, suspensas da estrutura metálica do tecto por delgados cabos de aço, destaca-se do espaço branco, iluminado da galeria. Ao visitante ocorrer-lhe-á, porventura, – ao acercar-se do conjunto e ao observar atentamente cada peça de ferro – as imagens de pedaços de bandeiras esfarrapadas, ondulantes ao vento tempestuoso, ou as de exuberantes plantas aquáticas, sem peso, flutuando em ondas atmosféricas, às quais se incrustaram formas de conchas, foices, lâminas cortantes (pendentes), órgãos ou casulos gigantes. Apartadas das paredes e concentradas na zona central da sala, as peças apresentam inclinações variáveis e levitam a alturas distintas do chão. A interacção entre os seus perfis, resultante da deambulação do visitante, intensifica a sugestão botânica e a de movimento congelado. Um conjunto de destroços, levantado do chão, é devolvido – apesar da fixidez e do peso real – em aparência de leveza.

A escolha da tinta negra sobre o ferro / aço facilita – tal como o cinzento em outras esculturas do autor – o apagamento das marcas de feitura e, também, a neutralização da sensação de peso. Objectivamente, a sua aplicação permite o encobrimento do material. Usado na produção de ferramentas e máquinas, armas e aparelhos de tortura, o ferro / aço torna-se em material exclusivo das suas obras, desde 1988. Um material industrial (rígido, flexível e resistente) que alcançou com o tempo – a partir do modernismo – conotações artísticas. No entanto, o motivo do fascínio do autor pelo ferro está relacionado com a sua dimensão mágica, alquímica, sobretudo, com o facto de ser trabalhado pelo fogo. É o fascínio com uma força transformadora da matéria e com a experiência física inerente à sua manipulação – e não com a matéria em si. Precisamente: com uma força que queima, destrói, consome e calcina, tanto quanto coze, aquece, endurece ou liquefaz.

Rigor (formal e técnico) e sobriedade, contenção e redução, são atributos reconhecidos das realizações plásticas de Rui Chafes (R.C.). Do seu ponto de vista, são os veículos ajustados para alcançar uma arte transcendental. Desenvolvida em torno de referências literárias, artísticas e filosóficas, a sua obra envolve espaços distintos: o espaço branco, neutro, do museu ou da galeria e, também, lugares, bosques, parques. Para além da dor como metáfora do corpo, há dois outros temas igualmente presentes no trabalho artístico de R.C.: a linha e a natureza (meio natural – com o qual R.C. nutre um diálogo poético e filosófico).

“Acredito em Tudo”. Quem o afirma, não está implicitamente a dizer o seu oposto, i.e. que acredita em Nada? Aquele que afirma acreditar na arte como única razão de viver e de se transcender; como refúgio de silêncio no meio do caos mediático do mundo contemporâneo ou possibilidade de transcendência – fazendo despertar nos humanos o pressentimento de um outro mundo – afirma que apenas acredita no vazio (na ausência, na inexistência) e no nada. Perante o destino inevitável de homens, sociedades, estrelas e tudo – a condenação ao desaparecimento, a redução de todos a pó e cinzas, após a morte – apenas a Forma e o Vazio, na sua universalidade, adquirem uma relativa eternidade. Por isso, diz acreditar na Poesia, na Ideia e no próprio Mundo – entendido como uma criação poética.

O artista é um transmissor de mundos e tempos outros. R.C. diz-se crente apenas no poder da arte (ou da poesia – porque tudo é poesia), no seu poder de cura e salvação das feridas do mundo. No entanto, é um descrente em supostos poderes de intervenção ou influência da arte – e, acima de tudo, na existência de condições de possibilidade na ordem do capitalismo avançado vigente – na resolução dos problemas e desgraças várias do mundo humano, social ou político. Para quem reconhece a existência e a subsistência unicamente à Ideia, à Forma e à Poesia (em sentido amplo), o resto não existe efectivamente, por ser pó, cinza e lixo.