Threading Space (Alinhavando o Espaço) é o elucidativo título da exposição antológica sobre a obra de Fred Sandback (1943-2003). Algumas peças e instalações (1967-2003) estiveram patentes no Centro Cultural de Belém, desde 24 de Outubro de 2024 até 9 de Março de 2025.
Além de esculturas conhecidas, Threading Space inclui vertentes menos conhecidas: gravura, desenho e relevo em madeira.
O espectador depara-se com uma obra condicionada por e ligada a um lugar particular. Incorporando partes específicas do espaço interior e com ele coexistindo, cada peça aparenta ser feita de quase nada e ser quase invisível. A manifesta leveza material das peças deriva de um uso subtil e austero dos meios – implicando a redução do vocabulário formal e de materiais; a renúncia ao peso e à massa opaca de um objecto tangível. Em afinidade com a sensibilidade minimalista, elas estão destituídas de pedestal (garantia da divisão entre o mundo inventado da escultura convencional e o ambiente circundante) e de relações internas das partes (própria à prática compositiva convencional). As construções lineares são etéreas e precisas na sintonia criada com o contexto dado ou existente. O espaço envolvente torna-se componente das mesmas. O encontro corporal do espectador, o seu envolvimento activo e a experiência multissensorial importam para as apreender. Por essa via, as peças mudam dinamicamente à medida que as nossas linhas de visão mudam com o movimento do nosso corpo no espaço.
Elemento crucial do desenho, a linha é limite e fronteira; zona de junção e encaixe de partes divisíveis de um todo. Um traço contínuo – visível ou imaginário – aponta o sentido e a direcção. A obra de Sandback atesta os muitos modos de uma linha ser desenhada. Fio de lã, cordel, arame, cordão elástico (até 1972), fio acrílico (desde 1972); fios de cor (suave, saturada, fluorescente) ou neutra.
A primeira construção linear (1966) – o contorno de um sólido rectangular, definido com fio e arame, pousado no chão – nasce da insatisfação com a assemblage de partes para formar uma peça. De volumes escultóricos discretos (sem massa e sem superfícies que os definem), Sandback evolui para uma escultura mais aberta, menos contida (de maior escala), literalmente construída de linhas finas e tensas, existindo em igualdade de condições com o observador num «espaço pedestre», congruente com o mundo quotidiano. Mantém a ambivalência entre interior e exterior e explora diferentes posições / orientações das peças. Usa a linha (fio: meio barato e comum) no espaço arquitectónico para construir, articular e definir situações específicas. Estica um fio de um ponto a outro, cruzando o espaço interior e ligando pontos em ou entre o chão, o tecto e as paredes, de modo a criar figuras geométricas reais que são, simultaneamente, definidoras de planos pictóricos (ilusórios) e de volumes arquitectónicos. Assim, estabelece proporções, intervalos e formas que constroem o lugar, onde o espectador pode andar à volta e estar dentro. Sem a tensão entre fio e pontos de fixação (invisíveis), a peça colapsa, dissipando a tensão entre a bidimensionalidade aparente do espaço óptico e a tridimensionalidade táctil do espaço habitual.
A cor garante adequada visibilidade à linha – nunca para chamar a atenção para a própria linha. Evidenciando o limite, a cor determina a relação variável da peça com um contexto espacial particular sob dadas condições de luz; mas também, equilibra as relações entre as várias peças que coexistem umas com as outras.
Gravuras e desenhos estabelecem relações especulativas e documentais com as peças escultóricas de modos diversos. Em ambos, sobre fundos neutros ou de cor, linhas (com ou sem indicação do espaço arquitectónico) intersectam (ou não) os limites do plano da imagem. Os desenhos são ora notações preliminares, ensaios de modos possíveis de construção e proporção – sem relação com a obra final –, ora derivados de uma escultura executada. Os relevos de madeira (1996-2003) são obras autónomas: fragmentos ostentando sulcos cruzados.