Home Cardus Edição 161, setembro 2026

ARTE E O TEMPO

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Carlos Ribeiro escreve de acordo com a antiga ortografia

ARQUITECTURA DA VERDADE

«[…] A realidade não tem que recear o esquecimento. / Pesada é a sua arte. / Senta-se-nos ao pescoço, / pesa-nos no coração, / enreda-se nos pés. // Dela não há fuga possível / porque em cada fuga nossa a temos por companhia. […]» (Wislawa Szymborska)

«É através das histórias que travamos o nosso combate para entender o mundo […] tentar encontrar um sentido para aquilo que estamos a fazer aqui no mundo.» (Paul Auster)

Os protagonistas de Blow Up (Antonioni, 1966) e Blow Out (Brian de Palma, 1981) – um fotógrafo e um sonoplasta, respectivamente – vêem-se capturados no intervalo entre a realidade e a representação (fotográfica e sonora), o manifesto e o latente, assim que sujeitam as representações produzidas à análise e investigação profundas. Uma luta solitária.

Eyal Weizman, arquitecto, com um percurso prévio no activismo e na luta pelos Direitos Humanos é o director – e fundador em 2010 – de Forensic Architecture (F.A.).

F.A. é a designação de um colectivo internacional de investigadores e especialistas provenientes de diversas disciplinas, alojado na Goldsmiths – Universidade de Londres (https://forensic-architecture.org/). Uma Agência que colabora com inúmeras organizações (Amnistia Internacional, Human Rights Watch e Nações Unidas) e comunidades locais – operando no campo alargado do jornalismo de investigação, arte e activismo.

Em 2018, F.A. foi nomeado para um dos mais prestigiantes prémios no domínio das artes visuais: Turner Prize.

Atentemos ao nome do colectivo. ‘Forense’ refere-se a ‘foro’ (âmbito judicial) e ‘fórum’ (espaço físico ou virtual de debate); mas também, à aplicação de ciências para esclarecer factos legais e crimes. ‘Arquitectura’ refere-se não só à construção de espaços e objectos, mas a uma forma de pensamento específico sobre as relações entre coisas e acontecimentos, os nexos causais entre política e forma construída. Dois domínios que comportam lados negros, resultantes de um desejo de controlo. A actuação de um Estado pode ser violenta e até criminosa. Ao serviço de um sistema de poder, a arquitectura pode ser uma forma de guerra. O desenho dos colonatos israelitas consubstancia, segundo Eyal Weizman, uma guerra de casas e estradas. Por isso, a junção dos dois domínios no nome do colectivo – Forensic Architecture – é o anúncio da sua mútua transformação, originando um modo diferente de prática: a arquitectura desloca a atenção forense para edifícios, detalhes, cidades e paisagens, trazendo um método de investigação essencial; o forense torna a arquitectura em prática de investigação, centrada na atenção à materialidade do ambiente construído e à sua representação (ou melhor: tradução) através de informação e media.

O âmbito das investigações de F.A. envolve a recolha aturada de um conjunto de indícios, provas, documentos e registos (áudio- / foto- / vídeo- gráficos) disponíveis na rede, em articulação com testemunhos orais de sobreviventes com vista a reconstruir crimes (perpetrados por – ou por outras entidades em conluio com – o Estado), catástrofes, violações de Direitos Humanos e danos ambientais através de tecnologia (mapeamento digital e modelagem 3D). Cada incidente é compreendido no âmbito de uma particular constelação de forças políticas e económicas. Torna-se o ponto a partir do qual se ilumina a rede colossal de nexos causais, ramificados e complexos. Mediante o cruzamento e a sincronização de um enxame de imagens e sons, juntamente com os testemunhos recolhidos, F.A. constrói um modelo 3D navegável – o qual inclui uma exacta reconstrução da linha do tempo de uma cena ou de um acontecimento traumático (ocorrido no mundo físico ou digital). Frequentemente, a reconstrução efectuada constitui um desmentido ou uma rectificação da narrativa dominante das instituições de poder.

Os resultados da investigação colaborativa e multidisciplinar (em escrita, vídeo e/ou forma interactiva) são apresentados em diferentes fóruns (tribunais, comissões de inquérito parlamentares), nos meios de comunicação internacional, em livros e em exposições (de arte e arquitectura). Assim, F.A. visa transpôr os limites discursivos intrínsecos de cada instituição.

Desta forma, F.A. compromete-se a alcançar uma percepção comum – cada vez mais ameaçada num mundo globalizado complexo por um sistemático esbatimento de divisões entre realidade e ficção. A destruição do equilíbrio delicado entre uma e outra – decorrente de uma flexibilidade com a verdade – é reforçada com o ataque à verificação (um processo longo, necessário, que implica a necessidade de reunir e confrontar vários pontos de vista).

A ambiguidade do seu estatuto não é muito diferente da de artistas como Mel Chin cuja obra, Revival Field (1990-2003) integra aspectos políticos e ecológicos ao seu potencial poético. Analogamente, se os materiais de F.A. são considerados como demasiado artísticos por tribunais, em contextos artísticos, são avaliados como meras provas e, portanto, pouco artísticos.

Num contexto de indistinção entre ficção e realidade, a prática estética tem a possibilidade de criar uma percepção comum, de tornar pública (e política) uma prova – veiculada de modo preciso e acessível, decisivo para o apuramento de responsabilidades. A verdade é uma mercadoria preciosa.