O MATT apresenta Miriam Cahn (1949), What Looks At Us. Até Outubro de 2025, o espectador tem a oportunidade de apreciar uma obra multifacetada (pintura, desenho, fotografia, escultura, instalação, vídeo), produzida entre 1978 e 2024, tematicamente incómoda e perturbadora. As pinturas e os desenhos resultam de uma execução rápida e vigorosa – realçando o carácter performativo do momento da criação. Os títulos são descritivos. A centralidade dada ao corpo, desde os anos setenta, está articulada com uma consciência feminista (crítica da ideologia da supremacia masculina; das idealizações sociais e culturais do corpo feminino – veiculadas pela arte ocidental, publicidade e mass media; das ideias acerca da feminilidade). A artista retrata corpos femininos vulneráveis (figuras espectrais, despidas, com rostos grotescos, seios e genitália exagerados, ostentando sinais de envelhecimento) em situação de gravidez ou de parto; corpos que sangram, geram e nutrem. Mas também, corpos oprimidos por relações de superioridade e inferioridade, impotência e poder, violência e agressão (sexual), sexismo e racismo. É intrínseco à luta feminista – individual ou colectivamente organizada – acabar com (e resistir contra) a violência dos homens contra as mulheres e a dos adultos contra as crianças, recusando consentir ou desculpar a violência no dia-a-dia. A eficácia dessa luta contínua é indissociável de um movimento geral – no qual ela se inclui – pelo fim do uso da violência em todas as suas expressões.
As suas obras são um comentário (não-ilustrativo) sobre o estado do mundo, dominado pelo horror e pela crueldade. Mostram como vê e sente a realidade. Não teme abordar os problemas contemporâneos: os movimentos migratórios; os refugiados – produtos da guerra, da nossa política e do mundo; os naufrágios ocorridos no Mediterrâneo (o mesmo mar onde uns nadam e outros naufragam) – causados pela fragilidade das embarcações ao serviço de impiedosas redes de tráfico humano e, ainda, pela política securitária europeia (decorrente da ausência de uma resposta europeia unificada).
Nas obras de início da carreira existem elementos de protesto contra a guerra do Vietname (bombas, aviões, tanques, armas), o medo de uma guerra nuclear (intenso durante a Guerra Fria) ou, posteriormente, a guerra de Sarajevo. A pintura Fuck Abstraction!, 2007/22+12/12/23, inspira-se na cobertura mediática dos assassinatos em massa de Bucha (Ucrânia) e nos relatos de raptos, violações e torturas cometidos por soldados russos. A pintura representa um acto de barbárie – prévio ao massacre – e a subjugação sexual de uma figura mais pequena, indefesa (um homem ajoelhado, com mãos atadas) por um homem sem rosto. A fragilidade do oprimido, submisso e de joelhos, contrasta com a força bruta do opressor. A sexualidade é uma arma de guerra, um crime contra a humanidade – tal como a fome (Gaza). Uma obra que causou polémica em França – a ponto de ter sido vandalizada. O tipo de representação adoptado é considerado ofensivo quanto aos costumes – atribuindo-se um carácter pedo-pornográfico à obra. Para os que se declaram escandalizados ou repugnados com essa representação, a alegada denúncia de crimes de guerra não a tornaria sequer mais justificável. Por mais louca e intolerável que seja, a realidade é, para os ofendidos, um pormenor olvidável, se não uma força evitável (prerrogativa temporária do tele-espectador de sofrimentos e calamidades alheios). Sempre é mais fácil remover ou censurar uma obra (veiculando uma intenção crítica e denunciatória) do que a própria realidade (cuja ordem social e económica exploradora alimenta formas de dominação coerciva, determinando hegemonicamente o estado do mundo). Os versos de um poema de Wislawa Szymborska são esclarecedores quanto à inevitabilidade da realidade – por contraposição ao sonho: «Pesada é a sua arte. Senta-se-nos ao pescoço, pesa-nos no coração, enreda-se nos pés.»