Cardus Edição 143, março 2025
Centro Cultural de Cascais
16/11/2024 a 16/02/2025
Carlos Ribeiro escreve de acordo com a antiga ortografia
Uma selecção da extensa obra fotográfica (1974-2022) de Nicholas Nixon (1947) esteve em exibição no Centro Cultural de Cascais (CCC), até ao passado 16 de Fevereiro, numa parceria com Fundación Mapfre. Das principais séries desenvolvidas ao longo da sua carreira (nomeadamente, as vistas abrangentes, minuciosas e frias de Nova Iorque e Boston, captadas através de câmara de grande formato, a partir de pontos de vista elevados, e com as quais foi incluído no elenco de autores – como Robert Adams, Lewis Baltz ou Bernd e Hilla Becher – presentes na exposição New Topographics: Photographs of a Man-Altered Landscape, 1975), destacamos a que foi inteiramente exposta no CCC: The Brown Sisters (As Irmãs Brown).
Iniciada em 1975 (na verdade, a primeira tentativa ocorrera um ano antes, mas o artista rejeitara-a por desagrado com os resultados), a série As Irmãs Brown foi concluída quarenta e poucos anos depois. Com um início casual – um ritual privado tornado em projecto público – a série consiste numa recriação, ano após ano, de um retrato de grupo, realizado com uma câmara de grande formato. Nessa fotografia de 1975, a preto-e-branco, a mulher de Nixon, Bebe (com 25 anos) encontra-se acompanhada pelas suas três jovens irmãs (Heather, 23; Mimi, 15; Laurie, 21). A série fotográfica evidencia semelhanças: no enquadramento e na ordem (posição) relativa das quatro personagens femininas (da esquerda para a direita: Heather, Mimi, Bebe, Lori). E, algumas diferenças em inúmeros aspectos: postura das figuras, vestuário, penteado, jóias e adereços; dinâmica de olhares, expressões, gestos; marcas de envelhecimento; distância variável entre os corpos das fotografadas; espaços (exteriores ou interiores) em que são fotografadas e etc. A manutenção dos mesmos parâmetros fotográficos faz sobressair as semelhanças e as diferenças entre uma e outra fotografia da mesma série. São determinantes – para a continuidade deste projecto no tempo – a confiança e a intimidade estabelecidas entre fotógrafo e sujeitos fotografados. Qualidades comprovadas em duas anteriores séries. Por exemplo: aquela sobre pessoas afectadas pela terrível epidemia mundial de Sida (People With AIDS, 1987) – cuja situação existencial se viu agravada com a discriminação e o pânico social que as diabolizou e transformou em «poluentes» (Susan Sontag); e a tocante série de retratos de idosos onde a vida é, em certa medida, devolvida e eternizada, quando a iminência da morte transparece em (ou ameaça trespassar) os rostos e os corpos.
O projecto As Irmãs Brown torna-se colaborativo. É valorizado o consentimento, o acordo entre as partes envolvidas, anualmente, na situação fotográfica – quer para se deixarem fotografar, quer para participarem na eleição da imagem final a partir de uma dezena de imagens produzidas. Com o avanço do tempo, as preferências e as decisões das irmãs Brown passam a ter um maior peso – ultrapassando e, por vezes, contrariando as preocupações técnicas e estéticas imediatas do fotógrafo (luz, composição e equilíbrio no enquadramento). Elas passam a ver a série fotográfica – enquanto sucessão de momentos congelados – não unicamente como um projecto artístico (a ficção do fotógrafo sobre quatro mulheres), mas como um elemento indissociável da história delas. A conexão entre fotógrafo e fotografadas (mulher e cunhadas) fortalece-se com o tempo, assim como a conexão física e emocional entre as quatro mulheres. A dinâmica entre a afirmação individual e a afirmação do grupo vai variando com a passagem do tempo. O fotógrafo vai deixando de ser um observador exterior. Em algumas das fotografias da série, a sombra do fotógrafo surge projectada sobre os corpos delas, assinalando, desse modo, a proximidade (temporal, espacial e afectiva) e – em simultâneo, o hiato intransponível – entre fotógrafo e seus modelos.
Conservando e fixando momentos no tempo – o tempo que inevitavelmente passa sobre as personagens, consumindo suas breves e frágeis vidas, assim como o momento do acto fotográfico –, a série constitui um testemunho partilhado da ligação fraternal ao longo do tempo.