Home Cardus Edição 15, novembro 2025

ARTE E O TEMPO

car

Carlos Ribeiro escreve de acordo com a antiga ortografia

DIALOGAR COM A HISTÓRIA E COMENTAR O PRESENTE

No princípio de Setembro terminou, no Centro Cultural de Cascais, a mostra de obras de Eduardo Arroyo (1937-2018), intitulada Biografia Pintada. Cobrindo um período de mais de cinquenta anos, o percurso expositivo principia com uma obra de grande formato: Os Quatro Ditadores (1963). Politicamente irmanados e igualmente submetidos a uma severa evisceração, Franco, Mussolini, Hitler e Salazar são singularizados, unicamente, por símbolos políticos, culturais e religiosos específicos. 

Eduardo Arroyo (E.A.) é reconhecidamente um dos representantes maiores da Figuração Narrativa, surgida na década de sessenta. A Figuração Narrativa assume a narração na pintura. Contesta quer a tendência dominante da abstracção na Escola de Paris, quer a renúncia modernista de Clement Greenberg (advogando uma prática artística pautada pela manutenção e aprofundamento dos limites entre as artes, assim sustentando a integridade dos meios de cada arte). A Figuração Narrativa introduz a duração, os diversos tipos de narração, os quadros no interior dos quais coexistem diferentes cenas e ocorre a metamorfose das imagens. À semelhança do Situacionismo, a Figuração Narrativa opera o desvio de imagens disponíveis no quotidiano por via da imprensa, cinema, televisão e anúncios publicitários. A narração não impede que os artistas se interessem pelas formas. Por isso, associam à vontade de narrar as soluções induzidas pelo formalismo – repensando a forma do quadro; alterando a superfície pictórica através de efeitos de fragmentação ou fazendo o contraponto entre objecto real e figura pintada.

E. A. desenvolveu a sua obra visual em várias disciplinas: desenho, cenografia, ilustração, desenho de cartazes, gravura. A sua vocação inicial foi a literatura e, nessa vertente, é autor de vários livros. Mais tarde, exilado em França (por repúdio da Espanha de Franco) funda, com Gilles Aillaud e Antonio Recalcati, o grupo L'Abattoir. Os três artistas pintam um muito controverso (e rebelde) políptico, formado por oito telas, intitulado Vivre et Laisser Mourir ou la Fin Trágique de Marcel Duchamp (1965). No referido políptico, a reprodução de três obras mais célebres da emblemática figura da vanguarda europeia terá contado com colaborações adicionais (nomeadamente, Gérard Fromanger). Posteriormente, a sua obra constitui-se numa reflexão sobre o exílio, alimentada por uma nostalgia de cariz irónico. Num dos quadros (Robinson Crusoe, 1966), o artista (de perfil) encontra-se atarefado com uma tela (cuja face não é visível para o espectador), tendo, atrás de si, uma tela análoga àquela em que se retratara (em 1965) como o famoso náufrago.

A sua obra pode dividir-se em duas fases marcadas pela morte de Franco (1975): durante o exílio (1958-1976) e após o exílio (1976-1998).

As circunstâncias políticas e culturais da história espanhola e europeia de meados do século XX tiveram uma forte influência no trabalho artístico de E.A. Dele emana um sentido de compromisso social e político. Uma das telas é um comentário mordaz sobre a geopolítica da Guerra Fria e seus efeitos colaterais, Le Billard: Carte Géographique des Bases Américaines en Espagne (1970). A sua obra é rica em referências literárias e autobiográficas nas quais se misturam o humor, a critica política e social e o fascínio pela cultura visual. Visa a ditadura, a vanguarda e a mercantilização da arte (El pintor orgulloso de sí mesmo, 1976), mas também, os estereótipos e mitos da cultura espanhola tanto quanto os elementos folclóricos (garrafa de Tio Peppe ou o chapéu cordovês).

Construiu uma galeria de retratos de personagens às vezes reais, às vezes imaginários – De Chirico, Dorian Gray, Fantômas. E de auto-retratos – enquanto Robinson Crusoe, pugilista ou limpador de chaminé. As homenagens à literatura e seus autores continuaram em homenagens à pintura e aos pintores (a Van Gogh: Van Gogh sur le billard d´Auvers-sur-Oise, 2016-2017; ou a Ferdinand Hodler: Ferdinand Hodler et son modele, 2016).

As suas criações traduzem a sua vida. Nas suas palavras: «[…] a pintura é um processo autobiográfico. Estamos constantemente a pintar a nossa vida. É o resultado da nossa evolução. A minha pintura é muito autobiográfica, com curiosidades, digamos, exteriores, que muitas vezes não aparecem no quadro, que são observações, olhares produzidos pela quotidianidade em certo sentido – a leitura de um jornal, a leitura de um livro, o passeio pela cidade… Indubitavelmente há uma relação muito estreita com a vida de cada um. É uma biografia pintada.» E, ainda, a Pátria pessoal.