Casa de Serralves
04 JUL 2025- 11 JAN 2026
Carlos Ribeiro escreve de acordo com a antiga ortografia
O Museu de Serralves acolhe, até Janeiro de 2026, a primeira exposição antológica de Maurizio Cattelan (1960). Para anunciar Sussurro: a reprodução de uma das mais polémicas obras de Maurizio Cattelan (M.C.): Comedian (2019). Uma banana fresca afixada à parede com fita adesiva prateada (‘duck tape’). Sensação global – de cada vez que alguém a consome, atraído pela frescura do fruto, ou gasta uma fortuna para a adquirir (obtendo certificado de autenticidade e instruções de instalação).
Na história de arte tem havido casos de ironia e iconoclastia artística: Os Incoerentes (1882-1893) e Dadaísmo (e sua longa posteridade). Durante a 1ª Guerra Mundial, o Dadaísmo opera uma dura crítica da arte e da sociedade. O bigode desenhado a lápis sobre uma reprodução de Mona Lisa (L.H.O.O.Q., 1919) – ecoando O Riso (1887) de Sapek (Eugéne Bataille): Mona Lisa fumando cachimbo – ou o envio de um urinol (Fountain, 1917; assinado ‘R. Mutt’) para desafiar e testar o júri do concurso de uma exposição da Sociedade de Artistas Independentes, são gestos com que Marcel Duchamp realiza a sátira e a zombaria dos valores tradicionais da arte. É contestado o conceito sacralizado de obra de arte. E, sob um sentimento de liberdade absoluta, há a vontade expressa de ampliar a esfera da arte a outros objectos.
A urgência de uma nova ética artística e a convicção da morte definitiva da beleza – num mundo sem conserto – norteiam provocações, demonstrações e oposições, visando convenções, idealizações e poderes. A negação dos valores estéticos e artísticos (subjacentes à experiência convencional da arte) é feita com agressividade e radicalismo extremos, recorrendo a: paradoxo; não-sentido; não-lógico e não-racional. Gera riso, curiosidade ou fúria. O mundo da arte é atingido, sem aviso prévio, por uma revolta incondicional, devastadora como uma epidemia ou uma «tempestade» (Hans Richter). O riso e a gargalhada irreverentes dos artistas dadá contra o burguês filisteu apontam para um ponto zero (tabula rasa) ou para uma nova arte. Reagindo ao torpor, riem-se de tudo e de si próprios. Leigos e especialistas em arte reconheciam-nos muito mais pela gargalhada (através dos seus escândalos públicos) do que pelas obras.
Com a habituação ao choque e o menosprezo pela rebelião dos rebeldes, o filisteu diverte-se comprando, com prazer, anti-obras, apoiado pelo comércio de objectos de arte e pelos museus. Uma mudança de atitude que possibilita a transformação de obras anteriormente condenadas em «exemplos que servem de lição» (Bergson). Por consequência, a rebeldia incondicional (indissociável da recusa em dissociar pensamento e vida) transmutar-se-á em incondicional adaptação; a vergonha e a exasperação do artista de vanguarda perante a crescente imunização do filisteu, em comprazimento do artista na cínica busca de glória e riqueza. O desejo de chocar e o impacto mediático imperam na arte contemporânea – frequentemente, com a conivência de instituições e administradores. No globalizado mercado da arte, os privilégios e o prestígio social, atribuídos à arte contemporânea e seus artistas, são amplamente explorados por ricos coleccionadores, ávidos de sensações e negócios.
O público que se sente apartado das obras modernas, por não perceber o humor de muitas delas, toma-as seriamente. O escasso conhecimento das convenções artísticas autenticamente inovadoras, ignoradas ou pouco conhecidas de profanos – exceptuando uma minoria, iniciada e altamente treinada – justifica a perplexidade e a incompreensão. O riso zombeteiro ou desdenhoso traduz a decepção perante o que aparenta ser nada mais que infame resto de arte (impostura, gracejo, impertinência, lixo, sobra, excremento) ou sinal histórico de um processo de decomposição da Arte (métier, sistema de convenções instituídas e lenta maturação artística desvalorizados; materiais pobres e valor mercantil elevado). Os seus criadores são vistos como loucos ou, então, como histriões (bem pagos).
Para Ortega y Gasset a essência da nova arte é a propensão para o escárnio de si própria – tido como a melhor prova do seu «mágico dom». Hugo Ball vaticina que, num mundo sem sentido, atolado na constante negação da vida e sem reparação possível, resta unicamente a «blague e a pose desajeitada».
A quem não tem bolsa para pagar a ‘experiência’ (consumo artístico de Comedian), nem pertence ao círculo próximo de M.C., sobra a reflexão sobre a seriedade da indignação pública. E o riso.
Nota: o título da crónica é uma adaptação livre do poema “A Néspera” de Mário Henrique Leiria.