Home Cardus Edição 15, novembro 2025

CRÓNICA

Cardus



O Ecoponto



Uma comunidade viva
de seres diversos
uns alados
outros com muitas patas
outros que mal se podiam ver
vivia
na paz dos senhores
por baixo
de um ecoponto
colorido
instalado
há muitos anos
num canto próprio
da despensa
dos senhores.

Mas
um dia
a sociedade de consumo
forçou
os senhores
a aumentar o espaço
de arrumação
na despensa
que
com o tempo
de grande
para pequena
migrou.

A engenharia
caseira
ditou
assim
que quatro novas prateleiras
iriam
ocupar
a parede
onde
ao fundo
do lado esquerdo
se encontrava
o ecoponto
acolhedor.

Ficaram
deste modo
condenadas
a migrar
para outro lugar
as cinco peças
que compunham
o ecoponto
modular.

E foi assim
que num instante
uma hecatombe
caiu
sobre a comunidade
que vivia
feliz e contente
pensando que para sempre
no canto acolhedor
do eco-protetor.

Voava
quem tinha asas
corria quem tinha pernas
agitava-se
quem
não tinha
nem pernas
nem asas.
Um silêncio
de gritos
de terror
de desespero
invadiu
o ar.

Nada que impressionasse
os senhores
do lugar:
um gás letal
que se compra
em qualquer loja
sem qualquer fiscalização
acabou
também num repente
com o pânico
e o sofrimento
dos pequenos seres
que viviam
felizes e contentes
pensando que para sempre
num pequeno ponto
dos pontos do Mundo.