Home Cardus Edição 158, junho 2026

CRÓNICA

Cardus



A Linha de Sintra



A linha de Sintra e a linha de Cascais são duas linhas conhecidas que ligam a cidade de Lisboa à periferia oeste. Quando cheguei a Portugal, anos 80, fui, durante algum tempo, utilizador diário da linha de Cascais, no caminho para o emprego. Esporadicamente também conheci a linha de Sintra pelo que me apercebi que era notória a diferença no tipo de utilizadores das duas linhas: gente fina ou aparentada na linha de Cascais, gente mais desfavorecida na linha de Sintra. Foram cerca de seis anos, um dia, como é desejo de todo o português que se preza, lá apareceu o carro e, a partir daí, disse adeus aos transportes públicos.

Circunstâncias da vida de motociclista distraído implicaram que ficasse inibido de conduzir por um período de três meses. E, deste modo, 45 anos depois, à falta de chofer próprio, volto a utilizar transportes públicos, novamente o comboio, mas agora na linha de Sintra, aquela onde fica a estação mais acessível a partir do local onde moro.

Este regresso ao mundo vivo e dinâmico dos comboios das linhas da periferia, está a ser uma oportunidade para ver como esse mundo, entretanto, mudou. Começo pelo exterior: ao contrário de há cinquenta anos, as estações e o material circulante são agora mais modernos na linha de Sintra, onde o investimento parece ter sido maior senão único. Entremos então no comboio: as composições continuam cheias, nas horas de ponta viaja-se muito apertado; os passageiros continuam a entrar e a sair, e a ocupar de diversas maneiras o seu tempo de viagem; há quem durma, ainda se veem pessoas a ler livros, mas a maior parte está agarrada ao telemóvel; há, também, pequenos grupos em conversa, alguns bem alto. Nestes aspetos tudo é igual ao passado. O que é que há de novo?

A diversidade! A linha é o reflexo da demografia atual da região servida pela ferrovia: uma população multirracial e cultural onde sobressai a africana entre todas as outras. Ouve-se português com sotaques variados, crioulo, inglês e francês (há muitos turistas a usar a linha), e também outras línguas que não soube identificar. A linha é efetivamente um mar de diversidade, um conjunto de mundos representativos e ativos que vão influenciar, cada vez mais, os caminhos futuros da nação portuguesa. E isso vai ser benéfico para todos.

O vídeo que descobri na net e que partilho parece-me caraterizar bem a linha de Sintra. A partir de certa altura há um registo oral duma pessoa que penso (não está referenciado) ser da professora universitária, Inocência Mata. Uma mulher africana, de quem tenho ouvido falar, lutadora como muitas que conheci que, contudo, é uma senhora simples e popular e, importa dizer, livre!