Estamos em Luanda, ano 1968, Angola é uma província ultramarina portuguesa. Cinco alunos do último ano do Instituto Industrial de Nova Lisboa foram enviados para o congénere de Luanda, por falta de professores. A cada um deles foi atribuída uma bolsa no valor de 1500$00, uma ajuda para as despesas de alimentação e alojamento. Hospedaram-se numa casa, pensão completa, um quarto para os cinco.
Um deles tinha uma mota. Uma Honda 150, uma estrela na época. Se uma 50 já era um sucesso, imagine-se uma 150. Mais ainda, para a conduzir era preciso ter carta de condução, o que acrescia estatuto ao titular. Outro dos cinco também gostava de andar de mota, não tinha carta, mas isso não era problema para ele nem para o dono.
A mota tinha escape aberto, o que fazia com que o motor se ouvisse bem. Uma coisa boa para dar nas vistas, para atrair a atenção, de todos, ou se possível, de todas, quando saíam das aulas dos estabelecimentos de ensino à volta do Instituto Industrial. E lá estava, um dia, a 150 e o tal condutor que não tinha carta de condução, para lá e para cá, na avenida em frente ao instituto, na hora do grande movimento da saída das aulas.
Olhos desatentos e eis que dois polícias bem equipados cercam o condutor distraído, atraídos pelo barulho excessivo da mota, o que dava direito a multa, raramente perdoada. Pobre, mas orgulhoso, o condutor não se esforçou muito evitar a punição, responde ao pedido de apresentação dos documentos com a entrega do BI e com um silêncio profundo quando é chegada a vez da carta de condução. Interpretação rápida do polícia, conduzir sem carta é crime e obriga a prisão preventiva. A mota é apreendida, o criminoso segue para a cadeia de Luanda, uma vez que já não é possível ir a julgamento nesse dia. Tudo rápido e bem organizado.
A cadeia estava cheia, as celas eram ocupadas por mais do que um preso, qualquer que fosse a natureza do crime. Ao condutor distraído coube-lhe uma cela com dois vagabundos, simpáticos e afáveis com o novo companheiro. Quiseram saber a razão que o trazia ali, riram-se muito quando a souberam.
Veio a noite e o jantar, um prato de alumínio sebento, com uma mistela dentro e um garfo. Jantar reforçado para os hóspedes mais antigos, mil agradecimentos ao colega recém-chegado.
Perto da meia-noite, grande alarido na prisão, presos acordam alvoroçados, ouvem-se vozes de mulheres, algumas aos gritos, polícias e presos divertem-se com a chegada dos novos hóspedes. Tinha havido uma rusga no bairro operário, um bairro de prostituição na alta de Luanda, mulheres presas, não sei se por falta de licença de trabalho se por proibição do exercício da atividade. Presos relutantes a mudarem de cela, mulheres para um lado homens para outro, só muito tarde os ânimos serenaram, não há festa que sempre dure.
Meio da manhã, o preso da mota é informado que tem visitas, que se deve deslocar ao local próprio onde elas o esperam. Lá estão os dois, o dono da mota e o colega mais velho. Ambos olham para o preso com um ar pesaroso, este sente-se muito pequeno, conta a história do que se passou, os colegas não comentam, continuam a olhar para ele como quem olha para um infeliz.
À tarde seguiu para o julgamento sumário. Na sala austera encontravam-se, o juiz, a testemunha (um dos polícias que o prendera), o escrivão e o arguido. Sentença rápida, 20 dias de cadeia remíveis a dinheiro, graças ao bom comportamento do arguido e boa condução, apesar de não estar habilitado. Saída em liberdade, dois dias para pagar a multa, justiça célere e eficiente.
Empréstimo aqui e acolá, a multa foi paga. Não houve mais dinheiro nem para gasolina nem quaisquer outras coisas. Apontamentos em papel de embrulho, muito estudo, muita cama e boleias para ir à praia - até ao fim do ano, altura de regressar por uns dias à casa dos pais. O serviço militar vinha a seguir.
Já em Portugal, muitos anos depois, para o primeiro emprego, foi necessário um certificado de registo criminal. Lá estava, no lugar próprio, o crime cometido e a sentença aplicada. Só muitos anos mais tarde, quando outro certificado foi solicitado, os antecedentes criminais haviam desaparecido - mais um cidadão recuperado.