Cardus Edição 144, abril 2025

Cardus


A Protecção Civil registou esta sexta-feira, entre as 00h e as 12h, um total de 185 ocorrências associadas à passagem da depressão Martinho em Portugal continental, maioritariamente queda de árvores, que ocorreram sobretudo na Grande Lisboa e Península de Setúbal.

Jornal O Público, 2025/03/21


Caminhar à Chuva


Vou ao google e pesquiso por “caminhar à chuva”. A primeira página que me é referenciada diz-me das vantagens dessa prática. Aqui vão elas:

  1. Conexão com a natureza: A chuva pode criar uma atmosfera única e relaxante, proporcionando uma sensação de maior conexão com o que nos rodeia, normalmente quando chove, os percursos tendem a ser mais melancólicos e introspetivos, o que permite uma maior ligação ao entorno.
  2. Redução do stress: Muitas pessoas acham o som da chuva relaxante. Caminhar à chuva pode ajudar a reduzir o stress e promover uma sensação de calma.
  3. Desafio físico adicional: Caminhar à chuva pode adicionar um desafio físico extra devido às condições escorregadias e ao esforço adicional necessário para se manter seco. Isso pode aumentar a queima de calorias e fortalecer os músculos.
  4. Sensação de liberdade: Algumas pessoas acham libertador caminhar àa chuva, especialmente se estiverem acostumadas a evitar condições climáticas adversas. Experimentar a chuva pode proporcionar uma sensação de liberdade e aventura.
  5. Melhoria do sistema imunológico: Algumas pesquisas sugerem que a exposição moderada à chuva pode fortalecer o sistema imunológico, tornando-o mais resistente a doenças.
  6. Paisagens renovadas: A chuva pode transformar paisagens familiares, criando novas vistas e cores. Caminhar à chuva pode oferecer uma perspetiva diferente do ambiente ao seu redor. O verde da nossa região, tende a ganhar cores ainda mais vibrantes, os cheiros da terra molhada, e os infinitos detalhes que este ambiente proporciona, mudam por completo a paisagem.
  7. O ar está mais limpo: Outro benefício surpreendente para a saúde de caminhar à chuva é que o ar fica muito mais limpo durante ou após uma chuva torrencial. Quando chove, a água elimina impurezas e poluentes que possam estar no ar. O ar que fica para trás contém muito menos poeira e alérgenos do que o ar durante os períodos de seca, portanto, caminhar à chuva pode ter um impacto extremamente positivo na saúde respiratória.

Não imaginava que havia tantas compensações para deixar o conforto do lar e ir realizar a caminhada habitual num dia de chuva ou mesmo de temporal. E não é preciso muito equipamento para tal. Basta um impermeável com capuz e um par de botas à prova de água. E por baixo do impermeável as roupas apropriadas à estação.

No rescaldo da depressão Martinho lá me calhou ter de ir caminhar à chuva. Que até não estava prevista, uma vez que, na altura da partida, o sol brilhava a céu aberto. Apenas um pequeno vento frio indicava que o inverno ainda não se tinha despedido. Deve ter sido este mesmo vento frio que, aumentando de intensidade, trouxe a nuvem escura que desabou, sem aviso prévio, mais ou menos a meio da caminhada. E a parte interessante é que se caminhava debaixo da chuva pesada com o sol pela frente. Assim mesmo. Um simultâneo de Sol, chuva e vento frio. Apenas ficaram a faltar os relâmpagos e os trovões. Árvores caídas, postes no chão e equipas a repararem os estragos do “Martinho” completaram a paisagem e condimentaram a caminhada. Tudo mais ou menos em hora e meia, o tempo que dura a caminhada habitual. No fim, apenas os pés molhados destoavam do conforto físico geral.

Beethoven também caminhava à chuva, eventualmente algumas das suas sinfonias nasceram ali.  Não caminho só quando chove, caminho regularmente “faça sol ou faça chuva”. É o meu momento introspetivo, o momento em que questiono a vida, nas três vertentes temporais: passado, presente e futuro. E no fim de cada caminhada, para além do conforto físico, sinto-me mais preparado para o que quer que venha a seguir.