À minha mãe
Avé Maria, tão pura,
virgem nunca maculada
ouvide a prece tirada
No meu peito da amargura.
Vós que sois cheia de graça
Escutai minha oração,
Conduzi-me pela mão
Por esta vida que passa.
O Senhor, que é vosso filho
Que seja sempre connosco,
Assim como é convosco
Eternamente o seu brilho.
Bendita sois vós, Maria,
Entre as mulheres da terra
E voss’alma só encerra
Doce imagem d’alegria.
Mais radiante do que a luz
E bendito, oh Santa Mãe
É o fruto que provém
Do vosso ventre, Jesus!
Ditosa Santa Maria,
Vós que sois a Mãe de Deus
E que morais lá nos céus
Orai por nós cada dia.
Rogai por nós, pecadores,
Ao vosso filho, Jesus,
Que por nós morreu na cruz
E que sofreu tantas dores.
Rogai, agora, oh mãe qu’erida
E (quando quiser a sorte)
Na hora da nossa morte
Quando nos fugir a vida,
…
Avé Maria, tão pura,
Virgem nunca maculada,
Ouvide a prece tirada
No meu peito da amargura.
12-04-1902
(Fernando Pessoa, Poesia 1902-1917, Assírio e Alvim, dezembro 2005)
Convido os leitores a ouvir Kátia Guerreiro interpretando este poema de Fernando Pessoa.
É uma pequena amostra de Portugal o que está nesta peça musical: a religiosidade, a guitarra, o sentimento, a prece, o lamento, o fado, a poesia, a alma, a oração, aquilo que muitos designam como a alma portuguesa.
Não é para ouvir na rua, no café, num encontro de amigos, ou com barulho à volta. O sítio ideal seria numa grande igreja cheia de fieis, em silêncio, como quando o padre faz a homília. Na falta deste ambiente especial, isole-se, sente-se, coloque os phones nos ouvidos, feche os olhos e relaxe. Depois com calma, sem pressa, carregue no play,
e deixe-se enlevar pela voz, pelos sons, pelo poema, por este tributo de Kátia Guerreiro à poesia de Fernando Pessoa.