Home Cardus Edição 151, novembro 2025

CRÓNICA

Cardus



O Comboio dos Estudantes


Créditos: Jorge Nobre, os Luenas

Volto a África, anos 50.

O Comboio Mala era o nome popular para um comboio de passageiros que percorria, numa viagem única, toda a extensão do CFB, a famosa linha de caminho de ferro que ligava o porto do Lobito a Vila Teixeira de Sousa, na fronteira oriental de Angola com o Congo. Uma viagem de uma ponta à outra, dia e noite, que durava cerca de dois dias, duas viagens por semana.

Comboio famoso, era composto por diversas carruagens, puxadas por uma máquina a vapor com o seu silvo próprio e o tradicional fumo branco a sair pela chaminé. A carruagem mais famosa era o vagão restaurante, onde se comia num ambiente requintado, cheio de estofos de couro, madeiras nobres e cromados reluzentes, ao bom estilo colonial britânico. Penso que havia mais uma carruagem reservada aos serviços do comboio, todas as restantes eram então dedicadas aos passageiros. Tal como hoje, estavam divididas em classes, a primeira para os mais afortunados, a segunda para os menos, e acho que havia ainda uma terceira e uma quarta para as classes mais desfavorecidas.

O grande acontecimento social das povoações ao longo da linha, para além da missa ao domingo, era a passagem do comboio mala.

Só havia escolas primárias em algumas povoações. Ensino secundário só mesmo nas grandes cidades, que não eram mais do que três ou quatro. Isto para dizer que quem vivesse em pequenas localidades junto à linha ou perto dela e tivesse filhos a estudar, mesmo na primária, tinha de os enviar para longe, para casa de algum familiar ou para algum quarto alugado, assim houvesse rendimentos para suportar as despesas. Acontecia assim, seis vezes por ano, o chamado comboio dos estudantes, onde em todas as estações entravam escolares que saiam depois em grandes grupos nas povoações onde havia escolas. Para quem trabalhava no CFB combinações prévias do empregado com o maquinista permitiam que em determinados lugares, não servidos por estações ou apeadeiros, este abrandasse a marcha para que o estudante conseguisse saltar para o comboio e seguir viagem.

Razões económicas implicavam que não houvesse vagão restaurante para os estudantes. Consoante o tempo da viagem (algumas podiam demorar mais do que um dia) as mãezinhas carinhosas colocavam na bagagem de cada um, ou um pequeno farnel, ou provisões para a viagem e também para os primeiros dias da escola, ou para presente de quem os alojava. Os estudantes conheciam-se em grupos e, dentro destes, quem embarcava apenas com um farnel e quem vinha com um grande aprovisionamento. Estes últimos estavam devidamente controlados: olhos atentos registavam a carruagem e o lugar ou a cabine onde se instalavam com as respetivas bagagens.

E então, comboio já em andamento, a tempo certo e com técnicas apuradas, que iam desde aproveitar a ida à casa de banho, dizer que o revisor o chamou, ou outras menos simpáticas, todas as bagagens dos estudantes identificados eram devassadas e tudo o que era perninhas de frango assado, croquetes, bolinhos caseiros, ou outras coisas deliciosas desaparecia num instante para desespero do menino afortunado. Uns reagiam melhor outros pior, os autores nunca eram identificados, sabia-se quem eram, mas denunciar era proibido.

Mais histórias deviam acontecer no comboio dos estudantes, esta, da partilha forçada de acepipes, ficou para sempre na memória do autor.