Todos os domingos a família, pai, mãe e três filhos, ia à missa. A casa onde viviam era afastada da povoação onde estava a igreja. Ir a pé, o que também era possível, demorava muito tempo, pelo que todos se deslocavam, para o ofício religioso, de bicicleta. Duas bicicletas, uma de homem e outra de senhora, cujos titulares eram, da primeira o pai e da segunda a mãe, como não podia deixar de ser.
Cinco pessoas e apenas dois meios de transporte implicava uma distribuição de cargas que não variava: o pai, o mais forte, na bicicleta de homem, pedalava com a mulher sentada no quadro e o filho mais novo no suporte sobre a roda traseira; o filho mais velho, ainda miúdo, mas já com músculos nas pernas, na bicicleta de senhora, com a irmã empoleirada atrás.
A viagem até à igreja fazia-se pela linha. Havia uma picada[1], mas como aparecia sempre um carro ou outro a obrigar as bicicletas a afastarem-se para a berma ou mesmo para o mato[2] para lhes dar passagem, o melhor era mesmo a linha[3], onde o único percalço era a passagem do comboio, rara, mas que poderia acontecer. Neste caso havia que sair da linha atempadamente, ouvidos atentos e habituados garantiam que valia a pena assumir o risco.
O percurso era mais ou menos a direito apenas, já perto da povoação, havia uma pequena subida. Pequena, mas para uma bicicleta sem mudanças, uma carga razoável atrás e umas pernas já com músculos, mas ainda fraquinhos, era uma enorme subida. Não se podia dar parte de fraco, como por exemplo, ir-se a pé, com a bicicleta à mão, como normalmente se fazia. Não, de bicicleta de princípio ao fim era a regra, do pai que seguia à frente aparentemente sem esforço e do filho que seguia atrás, pese as dores nas pernas que só ele sabia e sentia.
Atrasava-se ligeiramente, a bicicleta avançava a passo de caracol, mas nunca parou. No fim já não eram só as pernas, tudo lhe doía incluindo os braços que seguravam o guiador. Imagino que a respiração era ofegante e também imagino que a irmã que ia atrás não ia muito preocupada com o esforço do irmão.
A missa era assim aproveitada para o descanso, umas vezes mais confortável quando sentado, outras menos quando o ritual o obrigava a pôr-se de pé ou de joelhos, movimentos estes que ainda provocavam alguns queixumes das pernas, em fase de recuperação. Mas tudo muito mais fácil do que a subida que, agora com a missa já terminada e de regresso a casa, se transformava em descida, com as duas bicicletas rodando, no percurso da volta, muito mais próximas e velozes.
O autor já não vai à missa (a vida afastou-o desse mundo espiritual), também já não mora em África, mas continua a andar de bicicleta e a não ter medo das subidas: primeiro porque já não leva ninguém atrás, segundo porque comprou uma bicicleta elétrica, só tem que dar aos pedais para manter o motor ligado, estes são agora levezinhos não têm nada a ver com os antigos, pesados, a exigir um esforço para o qual em pequeno ainda havia músculos e vontade, mas agora já não há.
[1] estrada de terra batida
[2] vegetação densa e selvagem
[3] linha do comboio, espaço ao lado dos carris liso e a direito, proibido, mas perfeito para utilização de pedestres e bicicletas.