Cardus Edição 145, maio 2025

Cardus


Supermercado dos Países Baixos cria “caixas lentas” para combater solidão dos mais velhos

Clientes podem conversar com os funcionários sem terem que se preocupar com a fila de espera. Conceito sugiu pela primeira vez em 2019 e já está espalhado por 123 caixas de supermercado do país.

Jornal "O Público", 18 de Janeiro de 2023


Segunda-feira, de manhã, no Hipermercado


Os Hipermercados, ao contrário do que se possa pensar, não são espaços só para se comprar, são também espaços aproveitados para se estar. Pelo menos às segundas-feiras de manhã, por mim próprio confirmado, enquanto esperava, sentado no pequeno banco em frente à peixaria, pelo amanho do peixe acabado de comprar.

São principalmente pessoas idosas que vagueiam pelo espaço empurrando os carrinhos, vazios ou perto disso, à chamada velocidade de caracol. Não têm pressa, falam pouco, mesmo entre casais, ou quando falam ninguém os ouve, nem mesmo quem segue ao lado.

Não há muito por onde sentar, o hipermercado não foi construído para se estar. Apenas identifiquei dois pontos: o primeiro, o banco onde estou sentado, em frente da peixaria que partilho com uma senhora idosa, cada um na sua esquina; o segundo, o lugar onde se pode comer e beber, este agora com cadeiras e mesas, em que um pequeno café pode render uma permanência prolongada.

Há movimento perto de mim. A minha companheira do banco levantou-se, lentamente avançou para as frutas e legumes e, depois de muito escolher, pegou numa embalagem de cenouras e regressou ao mesmo lugar no banco e aqui ficou como tinha estado, imóvel e serena. Uns minutos depois, mais uma atividade, esta agora sonora. “Já tenho as cenouras”, foi o que gritou, com a intensidade possível, para um outro idoso que pachorrentamente empurrava um carrinho. Este, ouviu, parou, demorou o olhar, nada disse e seguiu com o passeio.

Há mais gente à espera do amanho do peixe, há que dar lugar aos outros a quem é difícil esperar de pé. Levanto-me e vou dar uma volta, desta vez à área dos livros, ver as novidades já conhecidas. Lá está mais uma fila deles em frente ao escaparate das revistas, folheando-as, alguns com os olhos quase colados ao papel. A fila é renovada periodicamente, não sei se por desinteresse dos artigos se pelo incómodo de ler de pé.

A maquineta eletrónica que transporto no bolso começa a piscar e a fazer barulho o que quer dizer que o peixe já está pronto. É só levantá-lo, ir para a caixa, pagar e sair pelo torniquete que só abre a quem comprou e pagou.

O movimento dos idosos continua agora no resto do centro comercial: mirando as montras, devagarinho, atenção redobrada aos bancos ocupados, uma vaga que tarda em aparecer.

É uma das realidades da sociedade portuguesa: a média etária sempre a subir, a população com 65 anos já vai em 24% do total, enquanto a população entre 0 e 14 anos representa 13,6% (dados de 2023).