Estamos numa grande superfície, um hipermercado. Na fila da caixa, alguns clientes aguardam a sua vez de pagar e sair com as compras.
A operadora de caixa pergunta se o cliente quer saco, passa os produtos um a um pelo leitor óptico e, no fim, questiona se tem cartão da casa e se quer número de contribuinte na fatura. Diz o total, pergunta se quer descontar algum eventual saldo, o cliente responde, recolhe os produtos, paga e sai. Segue-se o próximo: a mesma conversa, os mesmos movimentos, indefinidamente. O processo está oleado, maquinado, funciona sem percalços. Caixa e registadora são peças em movimento síncrono que despacham, um a um, os clientes e as respetivas compras.
Mas eis que, de repente, tudo para. Algo aconteceu que perturbou o mecanismo. A fila, que avançava a um ritmo certo, está agora imobilizada, assistindo à resolução do problema. Quem está mais perto percebe o que se passa: um cliente comprou meia dúzia de artigos e entregou, como pagamento, um talão que lhe terá sido oferecido por alguém. Sucede que a despesa é uns cêntimos superior ao valor do talão, sendo necessário pagar a diferença. O cliente não fala. Tem um ar perdido e ausente, mas aparentemente compreende a situação. Talvez por não ter dinheiro nem outro meio de pagamento, pega num dos produtos e devolve-o.
Alguém na fila oferece-se para pagar a diferença, mas a solução não agrada à operadora nem à supervisora que, entretanto, foi chamada, pois só ela pode retirar o artigo da lista.
Com o produto retirado, surge um novo impasse: como o talão tem, agora, um valor superior à despesa, já não pode ser utilizado na transação. É essa a informação que a máquina devolve e que a funcionária tenta explicar, agora em inglês. A mudança de idioma não melhora a compreensão do cliente, que continua sem proferir uma única palavra.
A mesma pessoa na fila oferece-se para pagar a despesa na totalidade, dado o valor reduzido, mas a oferta é novamente ignorada.
Finalmente por gestos, a empregada tenta explicar ao cliente que a compra tem de ser anulada. Ele parece perceber, pois dirige-se acabrunhado para a saída, com o talão devolvido na mão.
Os produtos recolhem ao armazém e o processo retoma o seu fluxo normal. A fila move-se de novo. As duas engrenagens — máquina e funcionária — continuam o seu trabalho rítmico e processual. A solidariedade não tem lugar no processo, nem na memória da máquina controladora, nem na da máquina humana — onde provavelmente já habitou, mas que o sistema, entretanto, apagou.
O futuro está entre nós.