Home Cardus Edição 147, julho 2025
Cardus



Um dia não são dias



De novo em Luanda, pós-independência. Alguma coisa aconteceu com o pescado porque de repente deixou de haver peixe (ou talvez, quem o pescasse e trouxesse para terra) num mar até então pródigo em fornecê-lo.

O mar continuava a existir, as praias também, era para lá que grande parte da população marchava, aos fins de semana, com os farnéis possíveis. O que fazia, por vezes, uma pequena família, pai, mãe e três pequenos rebentos. Iam para a chamada ilha, umas vezes ficavam do lado do mar, outras do lado da baía, em qualquer dos lados sempre o mais próximo possível da ponta, onde se situava o farol. Do lado da baía, havia sempre, separados a distâncias regulamentares, pescadores, cada um na sua cadeira, segurando uma cana de pesca com um balde ao lado, onde por vezes se viam peixes, conforme constatava o mais velho da família nas suas caminhadas ao longo da praia. Também os havia do lado do mar, estes agora empoleirados nas pedras dos esporões.

Numa terra de carências, uns peixes mesmo que pequenos, davam um grande aconchego alimentar de proteínas principalmente aos mais novos. E, então, o mais velho de todos, resolveu dedicar-se à pesca à linha. Assim mesmo, tal como os outros, uma cadeira, um balde cheio de água salgada, uma cana (com carreto) e a linha com o anzol e a pedrinha na ponta. A técnica, observada, era elementar: minhoca enrolada no anzol, umas voltas no ar, soltar o carreto na altura certa e esperar que a pedrinha e o anzol fossem cair o mais longe possível. Depois era puxar devagarinho, o tremor próprio da linha indicava quando trazia peixe ou lodo.

Mandam as regras falar com pessoas experientes antes de se avançar com um projeto, por mais simples que seja, foi o que fez o aspirante a pescador. Contactou os colegas versados ou praticantes na arte, melhores horas para pescar, onde comprar canas, onde arranjar minhocas, muitas perguntas e respostas pouco concretas, quase todas acompanhadas de grandes sorrisos, com muito humor pelo meio. No fim da formação, o aspirante a pescador a única certeza que tinha era que os colegas se tinham divertido imenso com o seu projeto.

E, então, um dia, lá estava mais um pescador, sentado na sua cadeira, com um balde ao lado e uma cana nas mãos, do lado da baía na ilha de Luanda. Um sucesso. Cana lançada, aí está um pequeno peixe imediatamente atirado para o balde. E mais um, e mais outro, e um grande e outro mais pequeno, mas todos bem compostos. E mais e mais. E ao fim de uma hora ou duas o balde cheio. E a família feliz, o pai era o maior. Regresso a casa mais cedo, a fritada foi uma delícia para todos, ainda deu para o almoço do dia seguinte. Problema resolvido, todos os fins de semana haveria peixe em casa, não faltariam proteínas ao crescimento saudável dos rebentos.

Fim de semana seguinte lá está o pescador entusiasta na praia do lado da baía sentado com a cana nas mãos e o balde ao lado. Atira anzol, puxa linha, peixe zero, nem a minhoca vinha devolvida. Uma hora, duas horas, sol a pôr-se e o balde vazio. Nem mesmo um peixinho pequeno para amostra. A família desiludida reconforta o pescador envergonhado, não haveria fritada nesse dia, melhores dias viriam.

Não se sabe quantas mais tentativas houve, mas foram muitas. E o resultado sempre o mesmo por mais que se alterasse o engodo, a técnica ou as horas: balde vazio!

Um dia, o pescador, desistiu. Levantou-se foi, à água, apanhou a toalha reuniu a família e voltaram, calados, para casa. E as proteínas necessárias para o crescimento saudável dos rebentos foram procuradas em outros lugares. A cadeira, a cana e o balde, ficaram na praia, marcas efémeras de um projeto abandonado.