… é um jovem filósofo com 104 anos (1921 - …) que marcou o pensamento ocidental no século XX. O seu principal contributo situa-se no que são as estruturas do conhecimento. Denuncia ele que “o método” tem sido sobretudo linear, tipo causa gera efeito, e cada vez mais especializado, isto é, cada disciplina fechada em si própria. Além disso, este modo de conhecer parte da procura dos elementos simples para compreender o todo. Mas, defende Morin, a realidade não se deixa conhecer com esse modelo ou paradigma epistemológico. Porque a realidade é, em si mesma, complexa. E a complexidade rege-se por processos que apenas podem ser captados assumindo um modelo de conhecimento e pensamento eles próprios complexos. Defende, pois, o carácter inter-poli-transdisciplinar do conhecimento. As disciplinas, que ainda hoje estruturam o saber académico, têm de ser superadas por processos de conhecimento e de ação entre os vários saberes, nenhum deles capaz por si mesmo de dar boa conta do que lhes é pedido.
Embora seja difícil superar um modelo com 2.500 anos de tradição, a verdade é que cada vez mais as equipas pluridisciplinares são exigidas tanto na investigação como na ação no mundo.
Além disso, o pensamento linear não consegue dar boa conta de processos naturais e sociais que são circulares. Por exemplo, a cultura produz o homem que produz a cultura, isto é, os seres humanos são produto e produtores de cultura. A disjuntiva “ou” tem de ser substituída pela conjuntiva “e”. Só nesta complexidade intrínseca é que conseguimos captar o processo.
Este pensamento da complexidade permite-nos compreender o que, em termos científicos, dá pelo nome de caos. Não o caos grego, que é a desordem oposta à ordem do cosmos, mas uma ordem caótica que é, em si mesma, instável e imprevisível.
Estamos, portanto, num outro universo conceptual e epistemológico que nos dá conta de um outro mundo que se escondia por detrás do pensamento tradicional e do conhecimento científico segundo o modelo clássico. Para estes, o mundo era visto como um cosmos ordenado (passe o pleonasmo), logo previsível. Agora estamos perante um universo caótico, ou um caosmos, logo com horizontes de previsibilidade muito limitados (como já estamos habituados a reconhecer na meteorologia) e imprevisível para lá deles. O universo é agora entendido sobretudo como desordem, mas povoado por ilhas de ordem. Não foi isto que nos ensinaram os gregos, mas é isto que temos de aprender. Isto obriga-nos a repensar todo o conhecimento e a redefinir as coordenadas do pensamento, embora não seja necessário deitar fora o conhecimento anterior, que continua a ser válido (quando o é) nas pequenas ilhas de ordem em que foi formulado. Por exemplo: a física quântica não anula a física newtoniana, pois esta continua válida no campo em que foi formulada.
Não é difícil, porém, vermos ao nosso lado (e em nós próprios) o velho paradigma de pensamento em exercício quando, partindo de uma parcela de conhecimento, alguém defende com unhas e dentes uma conclusão… que se revela inconsistente de um outro ponto de vista tão legítimo como o anterior. Daí a necessidade de cada um, mesmo especialista, se aproximar de Sócrates com o seu “só sei que nada sei” e, deste modo, abrir-se a um processo superior, mais complexo e inter-trans-polidisciplinar de conhecer e agir no mundo. Quem está aí que seja capaz de sustentar, contra Morin, que o mundo é simples?