Cardus Edição 143, março 2025
Hegel foi um autor de sucesso, por isso teve numerosos discípulos, os quais costumam ser agrupados entre hegelianos de direita e de esquerda. Entre estes, avulta Karl Marx (1818-1883).
Marx subscreveu de Hegel a dimensão histórico-evolutiva da realidade e reconheceu a contradição como a fonte do dinamismo. Mas considerou que a matriz do movimento não está nas ideias ou no Espírito, mas nas relações sociais de produção – estas é que são a verdadeira contradição e a origem das ideias enquanto representações do que se passa e do que se quer. Além disso, entendeu o conflito nas relações sociais de produção como a luta de classes. Assim, no início do “Manifesto Comunista” (1848), que Marx assina com o seu parceiro Engels, lê-se: «A história de todas as sociedades até ao momento presente é a história de luta de classes». Ou seja, a luta dos explorados contra os exploradores. Estes, além de dirigirem o processo de produção de bens materiais de modo a tirarem dele o maior lucro possível, dirigem também o processo de produção de ideias que justificam em cada momento o estado de coisas – com vista a mantê-lo, é claro. «São os homens que produzem as suas representações, as suas ideias, etc., mas os homens reais, actuantes e tais como foram condicionados por um determinado desenvolvimento das suas forças produtivas e do modo de relações que lhe corresponde (…)». Está, assim, dito o sentido da História, logo do que “deve” ser a ação nela. A classe operária precisa de uma sociedade sem classes, logo sem exploradores nem explorados, e pode lutar por ela.
Marx opta, então, por intervir na luta de classes concreta a favor do operariado e de todos os explorados e no processo de produção de ideias de modo a criar as ideias que hão de presidir a essa luta.
Portanto, mãos ao trabalho social com um bom projeto, que Marx esboça assim: no início havia o comunismo primordial, depois alguns apropriaram-se dos meios de produção em seu proveito submetendo e explorando os desapropriados, logo a boa luta dos explorados será recuperarem a posse coletiva dos meios de produção e assim alcançarem o comunismo final.
E Marx faz uma acusação à filosofia tradicional: «Os filósofos têm-se limitado a interpretar o mundo de diferentes maneiras; a questão, porém, é transformá-lo».
Temos, para já, um novo modo de entender a realidade social e, por outro, todo um novo programa de trabalho intelectual que vai consistir em reler toda a realidade a partir desta nova grelha de análise. É um novo programa político. Deste modo, a sociedade torna-se objeto de saber que se pretende científico. E para lá deste modelo estrito, afirmam-se como legítimas, possíveis e necessárias, entre outras, a sociologia e a gestão social, que têm aqui as suas raízes.
A luta de classes e o sonho de uma sociedade sem classes vêm abrir uma nova ideia: a sociedade pode ser melhorada, pode ser objeto de um trabalho eficaz de transformação, o qual deve ser regido pelo saber científico alcançado. Assim nasce, podemos dizer, a engenharia social, que vai muito além do mero governo político da sociedade existente. A sociedade não é um dado e no essencial imutável; passa a ser entendida como algo construído, logo suscetível de reconstrução.
Com Marx, a vida social passa a ser entendida como sendo objeto de uma dupla verdade: a “verdade” dos exploradores, que querem legitimar o seu lugar na História, uma falsa verdade ou ideologia, e a verdade que cabe à nova ciência histórica descobrir e que os explorados hão de saber usar. Deste modo, a questão da verdade deixa de ser simples e única, antes fica comprometida com a luta de classes, com a “opção de classe”. E a razão (agora com minúscula) é uma razão de classe: cada classe tem a sua. A sociedade fica, assim, fraturada.
Enquanto Hegel estava convencido de que a História estava a chegar ao fim, Marx afirma que ela tem então um novo princípio na noite da exploração (bem patente nos efeitos da Revolução Industrial), a caminho de um “paraíso”, o comunismo final. Alguns veem aqui a narrativa cristã da História, do paraíso inicial ao paraíso celeste, mas agora numa filosofia materialista e centrada neste mundo.
No caminho histórico para o comunismo, sabemos como Platão foi um mestre decisivo: a verdade vem de cima para baixo, o governo deve estar na mão dos “bons”, os que de facto sabem, os que sabem a verdadeira verdade, não a falsa verdade da ideologia dominante, que é preciso desmontar e denunciar: um novo programa de trabalho intelectual.
Desde o início da filosofia, apesar da diversidade de correntes, cada uma tinha uma conceção monolítica da História. Marx, sem dúvida um racionalista, embora reduzindo tudo à luta de classes, abriu uma fratura entre elas, e a História passa a ser objeto de narrativas diversas, comprometidas com a esquerda ou com a direita. E sabemos como os acontecimentos se desenrolaram desde então… até hoje.
Se olharmos para o trabalho intelectual ou para a ação cultural, vemos uma continuada luta de interesses divididos entre esquerda e direita. Podemos bem dizer que o mundo nunca mais foi o mesmo, e a filosofia também não. Basta olhar para estes cento e cinquenta anos para percebermos como a Razão, de absoluta, se tornou uma razão dividida e comprometida. E como, desde então, a cena internacional se mostrou... irracional. Alguma coisa se perdeu pelo caminho? Alguma coisa se ganhou?