Home Cardus Edição 160, agosto 2026

FILOSOFALANDO


Jana

Filósofo




39. E agora?



Quem acompanhou o percurso que aqui temos vindo a fazer terá percebido, não apenas uma sucessão de filósofos, muito menos um esboço da História da Filosofia, mas um processo. Um processo, em síntese, feito em dois tempos. Primeiro, a construção de uma civilização assente no pilar de uma Razão poderosa, absoluta; segundo a desconstrução dos fundamentos dessa mesma civilização. Não admira que tenhamos uma sensação de fim do mundo ou, pelo menos, de fim de civilização. Parece que nada faz sentido. E mesmo o poder sobre a natureza está agora a revelar-se suicida e a revelar-nos incapazes de suspender a nossa loucura coletiva.

Alguns dirão que é exagero, que sempre os seres humanos foram capazes de superar os problemas e descobrir novos caminhos. Mas esses nunca foram visitar as ruínas de civilizações desaparecidas. É verdade que outras vieram substituí-las, algures. Será o que está a acontecer hoje?

Quando Roma, que chegou a ter 700.000 habitantes ruiu, terão restado uns 70.000, perdendo 90% da população. A Europa de então ficou um caos. Foram as ordens religiosas que construíram a matriz de uma civilização que levaria séculos a recuperar uma forma de vida coletiva viável.

Porém, agora há uma diferença substantiva: hoje, são as próprias condições de existência da vida humana, senão mesmo da própria vida, que estão a ser postas em causa, sem que se veja um poder capaz de fazer frente a essa ameaça. Uma das hipóteses seria a Universidade. Mas as universidades andam perdidas de si mesmas e não encontram mais fundamento que vender as suas descobertas àqueles que estão a destruir as condições de possibilidade de uma civilização humana. Aliás, que humanidade podem as universidades construir? Que lugar reconhecem às Humanidades?

Sim, e agora? Que fazer?

Seria um atrevimento alguém dizer que sabe a resposta. Mas há pistas. É, necessário, porém, distinguir as boas das falsas pistas.

Uma boa pista é reconhecer o conhecimento científico como o melhor conhecimento disponível, porque testado e universal. (Sem ignorar a falsa pista da luta contra a ciência e a verdade.)

Depois, reconhecer que os seres humanos são sobretudo emocionais, porque o são, embora capazes de chegarem a ser racionais.

Mas as emoções mostram-nos que há, além do mundo exterior, um mundo interior tão interessante e importante como o exterior a que nos temos dedicado de modo obsessivo.

De seguida, procurar ser racional na medida do possível, isto é, ter um pensamento tão rigoroso quanto estiver ao nosso alcance, e (como fez Aristóteles) estarmos atento às condições desse rigor desejável. Precisamos de recolocar o problema do estatuto e do papel da razão, da qual não devemos desistir. 

E ainda, não deixarmos de discutir o essencial: que vida e que mundo queremos? Ou, dito de outro modo, decidirmo-nos sobre o que é – o que queremos que seja – ser humano. Isso passa por reconhecermos às Humanidades um papel decisivo que as ciências não podem exercer.

As ciências dão-nos o melhor conhecimento sobre como é o mundo, quais e como são os processos de que é constituído. Mas não nos dizem, nem podem dizer, que mundo e que vida queremos. E é aqui que está o segredo da vida – da possível vida boa.

Resta uma questão complexa. Sobre o mundo e a vida que queremos não há acordo possível – já o dizia Sócrates há 2.500 anos e assim vem sendo. Isso abre, objetivamente, um outro continente de problemas – sobre o poder. Não faremos nem pensaremos nada a sério sem levarmos a sério esse problema transversal.

E temos assim já um vasto plano de trabalhos que nos dará que fazer – a partir dos cacos em que parece encontrar-se a nossa civilização.

Temos de repensar tudo. E temos de refazer as relações concretas de que é feito o nosso mundo.

Haverá quem esteja interessado e disponível para assumir uma tal tarefa?

- Será que ainda vamos a tempo? 

Isso que interessa? A alternativa seria deixarmo-nos ir água abaixo.