Sigmund Freud (1856-1938) não foi filósofo no sentido técnico do termo, mas médico, um neurologista, que desenvolveu uma teoria – a psicanálise – com profundas implicações filosóficas que ele próprio começou por tirar e que depois se foi estendendo em muitas direções até à cultura popular.
Em síntese, para o que aqui nos interessa, Freud explicou-nos que o ser humano tem uma vida psíquica que se alimenta sobretudo do inconsciente, onde se alojam as pulsões naturais e os recalcamentos das forças da vida que foram contrariadas pela crítica social interiorizada.
A existência de um inconsciente não é novidade, há muito que vinha sendo assinalada. Mas Freud mostra-o com clareza e numa amplitude que não permite ignorar que o ser humano não é caraterizado pela consciência auto-transparente e pela racionalidade com que vinha a ser pensado. Bem pelo contrário, os “monstros” do inconsciente tomam demasiadas vezes conta de nós e os sonhos e os atos falhados, entre outros, são a experiência comum de que somos habitados por forças irracionais que nos movem muito mais do que estamos dispostos a admitir. E basta pensarmos na força que tem o sexo, tanto na vida individual como na organização coletiva, que Freud muito explorou nas suas análises, para vermos que qualquer coisa de muito profundo andava esquecido. E Freud trouxe isso à superfície.
Freud denunciava a repressão das pulsões vindas do inconsciente, a qual criava traumas e reprimia no dito inconsciente essas forças que iriam ocultar-se sob disfarce e reaparecerem de formas mais aceitáveis, criando problemas difíceis de detetar e mais ainda de resolver.
A importância atribuída ao sexo como força da vida e a denúncia dos problemas resultantes da repressão sexual foram em boa parte responsáveis pela libertação sexual de meados do século XX. Embora auxiliadas pela criação da pílula contracetiva.
A psicanálise e as teorias freudianas da psique humana tiveram uma grande influência nas artes, da ficção ao teatro, do cinema à pintura. Havia agora todo um continente a explorar e tudo isso era muito humano, talvez até mais que a racionalidade que a filosofia clássica nos habituara a colocar no centro de tudo e como única mestra da vida.
A nível popular, o inconsciente, os traumas, a repressão e a afirmação das pulsões naturais da vida passaram a fazer parte das preocupações correntes das pessoas. Evitar os traumas e dar livre expressão às “verdadeiras” forças da vida eram agora imperativos a ter na melhor conta. E coisas “velhas” como disciplina e autocontrolo ou força de vontade iam sendo colocadas no cesto do lixo da história cultural e dos comportamentos. Sem receio de se estar a deitar fora a criança com a água do banho.
Era um mundo novo que se impunha criar, em luta contra o mundo velho da coerção social “castradora”. O festival de Woodstock, em 1969, pode ser visto como o ponto de chegada e de nova partida desta cultura popular incontrolável, com os hippies a marcarem o imaginário de toda uma época.
Não, o Homem já não era a alma racional, a consciência clara e distinta, a vontade esclarecida pela razão prática e assim por diante. O homem (agora com minúscula) era um feixe de pulsões irracionais que o Poder procurava controlar em seu proveito e para a desgraça de quase todos nós, pelo que era indispensável libertarmo-nos do Poder e deixar fluir todas as pulsões. Agora, o desejo seria o guia da vida feliz.
Assim morreu o Homem que alimentou a reflexão filosófica desde a Grécia antiga. E nada seria como dantes.