Augusto Comte (1798-1857) é considerado o pai do positivismo, uma filosofia que vai afirmar-se em múltiplas direções até hoje. Segundo o próprio Comte, “o termo positivo designa o real, por oposição ao quimérico”. Isto explica-se pela sua “lei dos três estados” que, no fundo, é uma filosofia da História. No princípio, defende ele, os seres humanos viviam no “estado teológico”, explicavam tudo através da ação de deuses ou de um Deus único. Depois, passaram a explicar o mundo e a vida através de noções e forças abstratas, em que Deus foi substituído pela Natureza: foi o estado metafísico. Por fim, a evolução progrediu rumo à maturidade racional e os factos do mundo, da vida e do espírito, passam a ser explicados pela ciência, isto é, de modo positivo: é verdade e válido apenas o que é observado e explicado de modo científico através da formulação de leis universais – é o estado positivo ou científico. Para trás fica a confusão, a menoridade intelectual, logo o negativo. Esta é a História do progresso humano, afirma ele.
E Comte vê a sua filosofia expressa tanto na História coletiva como na história individual: «quem não se recorda, contemplando a sua própria história, que foi sucessivamente […] teólogo na sua infância, metafísico na sua juventude e físico na sua maturidade?»
No final (que só pode ser feliz), tudo será conhecido e explicado de modo científico e o conhecimento científico, o único válido, torna-se ação no mundo. (Falta acrescentar que assim teremos o paraíso de que, desde o inicio, andamos à procura.)
Não é difícil reconhecer que, desde os tempos de Galileu, a Ciência (escrita com maiúscula) tem feito progressos notáveis. E podemos acrescentar que, no tempo de Comte, o melhor ainda estava para vir. Também não é difícil identificar no mundo atual a presença desta filosofia em múltiplas correntes de pensamento. A confiança absoluta na ciência e na técnica e o seu filho primogénito, o desprezo por tudo o que seja religião, filosofia, arte, tradição, passado, ou seja, tudo o que não é ciência, progresso e futuro, manifestam-se nas opções também múltiplas pela tecnocracia e, mais recentemente, pelo transhumanismo que nos promete a libertação das nossas doenças e limitações e, por fim, da própria morte.
Por detrás de tudo isto está a fé na ciência e a confiança na Razão humana, uma postura que o Iluminismo traz até hoje.
Mas não podemos deixar esta página de fé e confiança num futuro radioso, porque racional e científico, sem nos lembrarmos do choque que foram as duas Guerras Mundiais e a bomba atómica sobre Hiroshima e Nagasaki. Ou, no nosso tempo, aquilo que a ciência (agora com minúscula) nos revela como mais que provável apocalipse resultante dessa fé acrítica na Razão e na Ciência. Algo parece estar a ainda por dizer, não?