Lévi-Strauss
Claude Lévi-Strauss (1908-2009) é considerado o pai da antropologia estruturalista (na sequência da linguística estruturalista de F. Saussure). Embora correndo o risco de sermos simplistas, podemos dizer que o pensamento tradicional sobre o fenómeno humano se foca nos seres humanos e nas suas capacidades, de que resultariam as sociedades, bem como na sua dignidade substancial. Lévi-Strauss parte, ao contrário, das estruturas sociais, por exemplo de parentesco, mitos e ritos, ou polos organizadores da vida coletiva (cru e cozido, homem e mulher…) para se perceber como se formam os seres humanos em cada cultura.
Dito de outro modo: no fundo, o que existe são as estruturas que formam os humanos, pelo que estes são um derivado da sua cultura. E uma cultura é resultado das estruturas que a tornam um todo. Ainda por cima, Lévi-Strauss mostrou que mesmo as culturas ditas “primitivas” são de uma complexidade insuspeita. Tal como qualquer língua.
Se virmos bem, uma cidade, por exemplo, é o todo das estruturas que a formam. Como um prédio não é nada sem as estruturas que lhe dão corpo. E assim por diante.
Ou, se quisermos, nada é, tudo pode ser reduzido àquilo de que e por que é formado. Até aos primeiros átomos e às partículas subatómicas.
Ou, dito de outro modo, tudo é sistema feito dos seus constituintes e das relações entre eles. E os constituintes também: cada um é um sistema feito dos seus constituintes e das relações entre estes. E assim por diante até… ao nada! Se repararmos bem, tudo perde densidade ou dignidade ou razão de ser. Nada é, tudo resulta – não se sabe muito bem de quê.
A ser assim, dissolvem-se muitas das arrogâncias de uma dignidade substancial vinda não se sabe de onde. E tudo é mais frágil do que alguns defendiam.
Por outro lado, também se abre uma janela de trabalho: uma forma de mudar o mundo é lutar contra as estruturas que sustentam o que se quer combater. Ou seja, desconstruir o que se rejeita para... E grande parte da luta social passou a ser a desconstrução… muitas vezes sem saber o que fazer com os cacos.
Num mundo sem propósito, o que ainda vale? O que faz com que uma forma social valha mais que outra? Aliás, qual é o fundamento disso que se chama de valor? Tudo parece dissolver-se em nada mais que fumo, névoa.
O estruturalismo começou por ser um método de análise e, às tantas, tornou-se numa filosofia. Mas depressa também entrou em crise. Contudo, o método de análise não perdeu a sua validade.
Talvez, afinal, o Budismo tenha razão: se fizermos uma análise exaustiva, resta-nos o vazio.
Mas, do nada, nada pode vir e o nada nem sequer é pensável, ensinou-nos Parménides.
Então, em que ficamos?