Norbert Wiener (1894-1964) foi um matemático e um filósofo, além de (ou: por isso) um dos mestres da ciência da computação. Tornou-se célebre pela “descoberta”, ou melhor, pela teorização do efeito de retroação, retroalimentação, retorno ou feedback, fundando assim a cibernética. Vale a pena atentarmos que é apenas em 1948 (ainda não há cem anos) que Wiener firma este conceito e trabalha para o partilhar com outros cientistas.
É a partir do conceito de feedback que é possível compreender o conceito de sistema: conjunto de elementos em interação de tal modo que a alteração num elemento provoca alterações nos outros elementos, formando um todo que é mais que a mera soma das suas partes ou dos seus elementos. (É curioso como é difícil para muitos aceitar que o todo pode ser mais que a soma das suas partes.) Como o todo é algo mais que a soma das partes, um sistema encontra-se estruturado em níveis, sobretudo em sistemas de sistemas.
O mundo é dado aos seres humanos sobretudo pela visão. Ao contrário de pelo menos em certos insetos, nos humanos a visão é linear, com boa definição e, por isso, dá-nos um mundo feito de coisas, coisas que nós vemos. Mas não vemos os sistemas. Para isso, é necessário aprender a ver de outro modo: ver não apenas coisas, mas sobretudo relações ou interações e o modo como elas se estruturam. Wiener deu-nos a chave para aceder a esse (novo) mundo. Agora, se pensarmos com olhos de ver, o Universo é um mega-sistema composto por sistemas de sistemas. E o nosso planeta também, embora uns bons níveis abaixo do Universo.
Quer isto dizer que precisamos de aprender a ver e a pensar. E sobretudo aprender a ver o todo, contra a tendência natural para nos focarmos apenas na parte que nos aparece mais imediata.
Se repararmos, abre-se aqui um leque enorme de problemas. Desde logo, é um mundo novo que se nos oferece. Depois, tudo precisa de ser pensado como sistema. Por exemplo: o ser humano é um sistema que só faz sentido dentro do sistema (físico, biológico, social, cultural) que o torna possível. A sociedade humana não pode ser pensada apenas em si mesma, mas sempre como um subsistema da natureza. Mas nós resistimos a isso. A redução, instituída, da natureza a um banco de recursos deixa de fazer sentido, porque já percebemos que não é sustentável. Então, por que razão insistimos em ir em frente? Porque ainda não pensamos de modo sistémico e porque os nossos hábitos são parte de um sistema que funciona para se manter estável (pelo menos a curto prazo, assente em relatórios financeiros trimestrais). Precisamos de aprender uma nova gramática do pensar.
Mas, se assim é, se precisamos de rever a lógica do nosso pensamento, o modo de funcionar da nossa razão, o que é a razão? A Razão, que se pensava eterna e imutável, a gramática ou linguagem do mundo natural, logo do conhecimento científico, afinal deve ser pensada como… Como o quê?
Os matemáticos continuam a discutir entre si se criam os objetos matemáticos (números, formas, conjuntos...) ou descobrem objetos matemáticos que já existiam antes.
E agora que o mundo analógico se depara com um mundo digital a afirmar-se como alternativo, esta é uma questão que não pode ser colocada no canto do prato.
Uma cidade, por exemplo, não pode ser pensada senão como um sistema de sistemas. E os seres humanos, nelas, são… o quê? Apenas um nível nessa hierarquia de sistemas, talvez redutível aos elementos que os constituem ou, ao contrário, só podem ser entendidos enquanto subsistemas do sistema social que é a cidade que é subsistema… do sistema que é a sociedade global, ou melhor, o grande sistema vivo do planeta Terra? Mas seremos capazes de pensar assim?
Quando eu penso, sou eu quem pensa ou é o sistema social e cultural que pensa através de mim? E quando ouvimos alguém dizer “Na minha opinião muito pessoal”, devemos rir ou chorar?
P.S. – Uma “ilustração” deste tema é a exposição “Arte e Moda”, na Gulbenkian (até 21 de jun): ali são expostas “peças” para dar a ver relações (sistémicas).