Home Cardus Edição 157, maio 2026

FILOSOFALANDO


Jana

Filósofo




36. O Big Bang


Einstein publicou em 1915 a sua teoria da relatividade geral que veio revolucionar a cosmologia física. Uma das consequências da sua teoria era que o universo não podia ser estático. Mas a tese de um Universo estático era tão sagrada na religião, na filosofia e na física que Einstein não se atreveu a ir tão longe.

Foi Georges Lemaître, um sacerdote jesuíta e professor na Universidade Católica de Lovaina que, em 1927 afirmou a hipótese de que todo o Universo derivava de um “átomo inicial”, postulando assim o evolucionismo cósmico. Os cientistas americanos riram-se da proposta e procuraram ridicularizá-la designando-a de Big Bang, nome depreciativo pelo qual ficou conhecida. Mas em 1929 Edwin Hubble demonstrou que, de facto, o Universo se encontra em expansão. E a teoria ficou batizada com os nomes de Lemaître-Hubble.

(A ideia tão defendida de oposição entre a Igreja Católica e a ciência também precisa de ser revista, mas isso é outra conversa.)

O Papa Pio XII, em 1951, baseando-se na teoria do Big Bang, afirmou que “a verdadeira ciência” “quanto mais avança, mais descobre Deus”. Mas Lemaître aconselhou-o a abandonar as relações entre religião e ciência e o Papa seguiu o bom conselho.

Estes episódios mostram como algo de muito profundo estava a passar-se. Desde sempre, e de modo especial desde os gregos, o Universo era estático, eterno e imutável. E a Verdade (com maiúscula) também. Agora, duma penada, a solidez profunda de todas as convicções e de todas as grandes verdades esboroava-se. Não, o Universo não é estático, é dinâmico, evolutivo e cada uma das suas formas é resultado de uma evolução e o antecedente de um novo estádio.

Lembremos que já Hegel tinha formulado a tese filosófica de que toda a realidade é dinâmica (dialética) e já Darwin tinha defendido a evolução das espécies, logo também a origem evolutiva dos seres humanos a partir de espécies anteriores. Agora parece completar-se o quadro universal: tudo é dinâmico e evolutivo.

Mas os quadros do pensamento, em particular os quadros mentais das normas sociais de ser e agir, que eram tidas como mais ou menos absolutas, deixavam de sê-lo. Tudo tem de ser entendido dentro dos quadros de evolução em que tem lugar.

E Jean Piaget, um psicólogo suíço, viria a revelar, nos anos 40 do séc. XX, que também as competências intelectuais dos seres humanos evoluem por estádios sucessivos de desenvolvimento. E se assim é, o conhecimento da realidade não é a realidade em si mesma (como Kant já nos havia avisado), mas sucessivas construções que resultam do estádio em que o sujeito do conhecimento se encontra.

E se é assim com os sujeitos individuais, também os sujeitos coletivos, por exemplo os povos, têm como realidade o que as suas estruturas de conhecimento lhes permitem obter, como nos mostra a antropologia cultural.

Basta olhar em retrospetiva para a história do pensamento ocidental para vermos como estamos perante um universo bem diferente daquele em que os velhos filósofos nos ensinaram a pensar.

Temos de perceber que a civilização que nos formou está a sofrer profundas remodelações. Tudo está a ser repensado e muitos de nós queremos manter as velhas convicções, agarrados a esquemas de pensamento cuja validade já não tem a força de verdade eterna e imutável com que nasceram e que alguns continuam a querer manter.

O evolucionismo cósmico e o evolucionismo biológico põem em causa a velha ideia de que os seres humanos são independentes e acima e fora da natureza e que esta lhes foi dada para seu usufruto, domínio e exploração. Hoje sabemos que isso não é verdade: os seres humanos são parte da natureza e da sua história. Sabemos… mas não vivemos de acordo com isso que sabemos. Porque é uma verdade inconveniente?