Cardus Edição 142, fevereiro 2025

FILOSOFALANDO

Jana

Filósofo




21. Entretanto 3



Hegel morreu em 1831. Em 1859, foi publicado “A Origem das Espécies”, de Charles Darwin (1809-1882), em que se defende a teoria da evolução. Darwin propõe ali um outro modo de pensar o fenómeno da vida. Em conclusão, nós pensamos hoje que os seres humanos vêm de espécies pré-humanas, as quais são resultado de um processo evolutivo com origem nas primeiras formas de vida. Hegel propõe uma nova gramática de pensar e Darwin aplica-a, de modo científico, ao estudo da biologia.

Se assim é, se os humanos têm origem por evolução em espécies pré-humanas, é fácil perceber que os humanos tiveram de criar, passo a passo, não só instrumentos, como novas formas de pensar e agir, isto é, de ser. Temos vindo aqui a tentar espreitar alguns – apenas alguns – dos passos desse processo no mundo ocidental.

No princípio, os humanos pensavam contando histórias, e ainda hoje nós pensamos assim. Mas pouco a pouco foram desenvolvendo outras gramáticas específicas de pensar. Com os gregos, a geometria e a lógica e ainda uma nova metafísica criaram novas possibilidades e desse modo deram origem a uma civilização, a nossa.

Ao contrário dos chineses, a metafísica grega era fixista: “o ser é, o não ser não é; ser e não ser não pode ser”. Platão ensinou-nos a pensar a cidade e Aristóteles deu-nos uma gramática da procura das conclusões verdadeiras. A natureza passou a ser pensada de modo racional e o ser humano foi definido como animal racional, em que o racional era a verdade do humano e o animal algo a que, infelizmente, a alma racional estava acorrentada. O Cristianismo haveria de levar esta filosofia por toda a Europa e depois estendê-la, a partir dos sécs. XV-XVI, ao resto do mundo.

No séc. XVII desenvolve-se um outro novo modo de pensar. No essencial, mantém as aquisições que vinham de trás e acrescenta-lhe a expressão em linguagem matemática e a verificação nos factos da natureza do que ia sendo pensado. Esta nova gramática do pensar permitiu avanços extraordinários no conhecimento do mundo, mas manteve a assunção de que a natureza é em si mesma racional e matemática e é por isso que os humanos podem conhecê-la com rigor e, assim, chegar à verdade. E levou à conclusão de que tudo o mais… é ilusão, engano, falsidade. O século XVIII foi um tempo em que o Iluminismo fez desta gramática de pensar motivo de guerra cultural. Em boa medida, até hoje. Além disso, com o modelo de Hegel em mente, afirmou-se o conceito de progresso, que é também uma fé em que tudo vai bem e em crescendo sempre para melhor.

Lembremos que a biologia foi confirmando a gramática proposta por Darwin, mas o Universo continuou a ser pensado de modo fixista, estático, apesar do movimento dos astros. Apenas nas primeiras décadas do séc. XX o Big Bang veio dar-nos uma imagem dinâmica do processo cósmico e a teoria da deriva dos continentes fez o mesmo quanto ao planeta Terra. Obrigado, Hegel. Hoje ainda continua, como no tempo de Darwin e da proposta do Big Bang, a luta entre fixistas e dinamicistas, bem como entre os que defendem que apenas a ciência pode conhecer e outros que pensam que ela não é suficiente. Também não é fácil manter hoje a fé num progresso constante. Mas não devemos ir depressa demais.

Deixámos Hegel com a sua proposta de um pensar dinâmico sobre uma realidade que evolui por fases em virtude de conter em si forças contraditórias. Mas, para Hegel, todo o processo é obra da Razão: ela é tudo e tudo controla ao longo do tempo. Ou, se quisermos, Hegel introduz o tempo no ser e, por isso, no conhecer. A historicidade é agora própria do ser e, por isso, o conhecer não pode ignorar o processo e as respetivas fases.

A gramática de Descartes impunha, no séc. XVII, que um efeito não pode ser mais perfeito que as suas causas. Hegel supera esta regra: o processo evolutivo impõe que uma nova fase seja superior àquela de onde proveio. É, de modo muito claro, uma nova gramática de pensar para a qual é necessário deixar a anterior.

Com Hegel, a Razão é o ser e o acontecer (na natureza e na sociedade), é o conhecer e ainda a consciência de todo o processo. A Razão é o absoluto. O Espírito, chama-lhe Hegel.

Mas, cuidado… Diz o povo, que muito sabe: “Quem ao mais alto sobe, ao baixo vem cair”. E Hegel já nos tinha alertado para o facto de que o processo é dialético: de uma modalidade ou fase ou qualidade, o processo salta para o seu contrário. O que estará para acontecer?