Cardus Edição 143, março 2025

Malisca

As Mulheres da Minha Vida

(parte 5)

A vida de professor impõe andanças de escola em escola e foi numa dessas romagens que a conheci. Hoje vou falar da Rosa, uma das mulheres mais especiais e importantes desta minha viagem.

Há muito tinha passado a flor da idade, estava a driblar a etapa da maturidade, com toda a sede de inovação e mudança, quando, pé ante pé, me fui aproximando, por reconhecer logo na sua pessoa uma fonte inesgotável de aprendizagens e de respostas às minhas pressurosas questões. Como um ser singular que não deixa ninguém indiferente, a Rosa adornava em si a grande consideração e estima de toda a comunidade escolar. Colegas, alunos e restantes funcionários entrouxavam-na de respeito e afeto pela dignidade e empenho que a sentiam dedicar em todos os afazeres do dia a dia e também pela forma genuína, isenta de asnices e de arrevessos, como com todos se enturmava. Passou pelos inúmeros cargos com a leveza do dever a cumprir, sem queixumes ou sentimentos bugalhudos. Sóbria nas palavras, mas vigorosa nas ações, não se escondia em desculpas ou justificações para estorvar obrigações, pautando-se sempre pela supremacia e excelência do bem-fazer.

Mais velha do que eu dez anos, encontrei nela um mundo de sabedoria, experiência, cumplicidade, sensatez, força, empatia, humildade, integridade e, sobretudo, inspiração. Esta mulher fez-me acreditar nas capacidades e competências que estavam definhadas nos esconderijos mais longínquos de mim. Ensinou-me a enfrentar os fantasmas da insegurança e conseguiu acionar o elevador da minha autoestima. Depois de a conhecer renasci outra pessoa.

Não me esqueço do primeiro ensinamento selado logo numa das primeiras reuniões de Conselho Pedagógico, onde ao iniciar-se o primeiro ponto da ordem de trabalhos se instala de imediato uma algazarra, com atropelos de opinião, desconversas e discórdias sem ninguém ouvir ninguém; de soslaio olho para a Rosa, que se mantinha calada, quieta, em observação, à espera do momento certo para intervir. De repente, está a sala em silêncio e a Rosa, calmamente, de forma objetiva, concisa e pragmática, propala estratégias e soluções deixando cada um completamente entrançado no seu discurso. Tenho na memória essa imagem, e já lá vão mais de vinte e cinco anos: todos dispostos em círculo à volta de uma mesa feita com a junção das carteiras da sala de aula, uns em frente aos outros, a presidente da reunião à cabeceira junto ao quadro preto, todos a olhar na mesma direção, para a Rosa, que, em trás, trás, trás, num argumento claro e sólido, arrebatou a concordância integral dos presentes. Depois desta reunião outras sucederam e era sempre dela que brotavam as mais sábias e sensatas decisões. A minha admiração e fascínio por esta mulher foi crescendo dia a dia e cada vez mais.

A Rosa, despretenciosamente, destapava egos, ideias e ideais, preconcebidos e achaparrados em preconceitos, com a ligeireza de quem desconstrói uma estrutura de papel ou folheia um livro.

Com ela usei tempo para refletir, relativizar e questionar-me. E tantos foram os carreiros que teimei desobstruir, sempre tão ofuscados por neblinas cerradas ou vedados pelos ruídos da complicação. Com a Rosa também usei tempo para aprender a olhar com a clareza da simplicidade as teias da vida para poder desenlaçar-lhe os nós, conseguir ver de perto o que está mais longe, transpor o horizonte e chegar.

Entre muitas frases suas, há duas que guardo comigo e que, apesar de aparentemente poderem parecer banais, estão sempre presentes e servem de bastão nos desequilíbrios da minha caminhada:

“…não vale a pena lastimares-te, nem perder tempo com lamurias, ou aceitas a situação e segues em frente ou não aceitas e mudas o teu caminho …”;

E

“…que Deus não te ponha à prova daquilo que consegues aguentar…”

São muitas as razões que fazem desta mulher uma das mais significativas da minha vida, tudo o que eu possa dizer será sempre insuficiente. As palavras, mesmo as mais rebuscadas e especiais, não conseguem traduzir o quanto lhe estou grata.

Obrigada, Rosa.

(Continua)



Arquivo