Cardus Edição 145, maio 2025
A promessa de umas férias paradisíacas não se cumpriu. Assim que poisou em terra, ainda com a avidez e cobiça de arrecadar as cores, os cheiros e a beleza das praias e das paisagens que a esperavam, instantaneamente sentiu uma sombra a comprometer o entusiasmo desta viagem.
Às seis da tarde o Sol já partira e o escuro da estrada, a caminho da guest house, advertiu outras ausências a somar à falta da energia. Mas foi ao outro dia, quando a luminosidade se expandia do céu, que todos as carências deste jovem país se escancararam ao seu olhar.
Cães magros e famintos, a deambular pelas ruas e a acompanhar as longas filas de crianças a caminho da escola. Aqui e ali, luxuosos resorts abraçados ao verde das árvores e ao azul do mar para esconder as mazelas entrançadas à volta. Os trabalhadores, com salários para além do quase nada, a oferecer os seus serviços aos turistas, fingindo alegria nos sorrisos encomendados. Sem transportes públicos, muitos a iniciar o dia de madrugada à espera que o táxi esgote lotação e resolva partir, para chegar a horas de servir iguarias que nunca provaram.
Sem água potável, saneamento básico e sem todas as outras necessidades primárias asseguradas, a população vive rodeada de resiliência e passividade.
Esta realidade toldou as cores do seu entusiasmo e sentiu-se vazia quando conheceu a história de uma das camareiras do alojamento. Numa tarde chuvosa em que se ofereceu para a levar a casa, na Roça Agostinho Neto, foi-lhe perguntando pela vida. Mãe de quatro filhos, vivia agora sozinha com o mais novo, os outros levou-os o pai para Londres em busca de caminhos que S. Tomé já esqueceu. O quarto, cedido temporariamente por familiares, arrumava todo o seu quinhão, escrupulosamente limpo e empilhado, à espera da casa, ainda por acabar.
Quis vê-la. Lá estava, empoleirada sobre quatro pilares altos, apenas com a base e uma lateral. Madeiras já descoradas pelo tempo da demora infinda, enquanto amealha sobras do mês.
Num segundo adivinhou contas. Ordenado, 2500 dobras (cerca de 100€); subsídio de alimentação e transportes, zero dobras; preço das madeiras para cada lateral,1800 dobras; probabilidade de acabar a casa, remota.
Sentiu as bochechas da face incharem de rosáceas e vermelhões de constrangimento. Asseverou a injustiça das desigualdades e das oportunidades da vida e teve vergonha. Quando voltou para o hotel veio zangada com o mundo, mas decidida a inverter a sorte. Foi ao mercado da cidade procurar panos africanos, talismãs de inspiração pelo vivo do fogo intenso das tonalidades e das tramas.
Regressou da viagem outra pessoa. E, enquanto transformava os panos em sacos coloridos, veio-lhe à memória um dos filmes que a marcou na sua juventude, Os Maridos de Elisabete, com Lee Marvin, Clint Eastwood e Jean Seberg, um musical de 1969, passado no faroeste americano e que gira à volta do peso da importância de uma casa, um tema claramente intemporal e que reviu na história da Mila.
Depois de concluídos os sacos, encheu-os todos com amor, e conseguiu vendê-los aos colegas, aos amigos e aos vizinhos.
Uma troca feliz, a Mila vive finalmente na sua casa de madeira alcandorada.