Cardus Edição 144, abril 2025
Conto seis, as mulheres que se cruzaram comigo e que, para além de limaram vértices afilados das minhas imperfeições, deixaram em mim trechos das suas composições. Mulheres que, na sua diversidade, me fizeram acreditar que o mundo somos nós e que pode ser sempre melhor.
A última de que vou falar, a João, tem-me acompanhado há mais de vinte e cinco anos e, como um íman natural, eterno, que não se gasta, continua a exercer em mim fascínio e encantamento. Colegas de profissão, foi na escola que me deixei enlevar pela riqueza dos predicados que firmam a sua identidade.
Assim que me conheceu, um bom dia princesa, era o que me atirava logo pela manhã. Sorriso destapado, voz branda e olhar agasalhador, nunca tal patente me tinha sido reservada e o meu coração, incrassado como uma bola, derretia enternecido. Muitas segundas-feiras, esta saudação acompanhava-se de miminhos trazidos da quinta, o seu paraíso no Alentejo cheio de histórias para sonhar.
Não sei o que a prendeu a mim, mas eu, em menos de um sopro, fiquei embrulhada na luminosidade da sua aura, acometida por um crescente amor platónico. Foram muitas as vezes em que a disputa pela sua atenção levava colegas e alunos até ao portão da escola, ao início do dia, esperando a sua chegada, onde eu já me encontrava estacionada na primeira linha.
Adorada pelos alunos, esta professora nunca se limitou a transmitir apenas conhecimentos, conseguindo, como ninguém e de forma genuína, cativar os jovens que, no dia-a-dia, partilhavam com ela os seus dissabores e angústias em troca de calorosas e sábias palavras de conforto.
Sempre foi magnético ouvir esta mulher sobre qualquer temática da vida. Palavras certeiras, retumbantes e oportunas convivem com ela numa naturalidade contagiante. A sua postura e filosofia de vida são inspiradoras.
Fascina-me a delicadeza com que escuta o outro, a forma como trata os demais, sempre com simpatia e doçura, sem cobranças ou juízos de valor. Nos momentos mais adversos consegue manter a calma e a dignidade e não tem por hábito expor as suas queixas ou sentimentos. Fiel às suas convicções, rege o dia-a-dia de acordo com a sua espiritualidade.
Mulher de desafios, a sua vida deu uma grande reviravolta, deixando a escola para se dedicar a outras atividades profissionais. Ela num ano e eu no outro seguinte.
Depois de solicitarmos licença sem vencimento dos postos de trabalho, enquanto professoras, por um período que foi longo, embarcámos em novas experiências. Durante os anos que se seguiram, vivenciámos grandes desafios e enfrentámos, com companheirismo, a luta trazida pela Troika. Foram anos de aprendizagens e de crescimento pessoal onde, apesar dos gregotins perpetrados na alma, mantivemo-nos unidas por uma amizade que nunca se esvaneceu. E acabámos inteiras.
Voltámos, e a escola recuperou uma professora única e especial, tão importante para os nossos futuros cidadãos.
O meu coração, muitas vezes mirrado e encolhido, sempre se surpreendeu com o dela, grande e disponível onde todos cabem, sem atropelos nem condicionalismos.
Com ela aprendi tanto do que não havia em mim e tanto do que precisava tirar de mim.
Obrigada, João, por fazeres parte da minha vida.