Cardus Edição 141, janeiro 2025
A terceira mulher que atravessou a minha vida não é menos importante. A par das outras, também esta me espantou e conseguiu enlear-me com ela. Entrou na família provinda de terras alentejanas, onde nasceu e cresceu, trazendo consigo os sabores e os saberes deste mundo que, desde logo, me encantaram, por serem tão diferentes dos meus, mais preenchidos por naturezas africanas.
Conheci a Isabel quando iniciou as suas andanças como professora do ensino básico e secundário, caminho que também encetei, uns anos depois, apesar de ser mais velha.
Entendida nas artes de saber escrever, fascinava-me ouvi-la falar deste ou daquele escritor e foi com ela que aprendi a aprimorar, mais e mais, as formas de dizer e de contar. Mulher marcadamente culta, admiro a sua prática de hábitos de leitura, ainda hoje assina o jornal de letras e compra diariamente o jornal público. Sempre a vi envolta em papéis e livros e claro que é uma grande conhecedora da literatura portuguesa, a Isabel sabe sempre tudo. Muito discreta na postura, mas muito atenta e observadora, raramente exibe a palavra, surpreendendo todos, no entanto, quando lha solicitam.
É um ser muito especial, nada efusiva, nada dramática, nada arrevesada, desprovida de preconceitos, tem todos os dias um sorriso para saudar quem lhe cruza o espaço e é incapaz de mudar o tom de voz, mesmo quando a situação o exige. A vida já lhe magoou a alma e, muitas vezes, a deixou estilhaçada como um véu rasgado a esvoaçar ao vento, mas a dignidade, essa, continua intacta.
Nunca a vi exaltada, demasiado alegre ou em estado de euforia. Sempre admirei a calma com que abraça a efervescência dos acontecimentos. Nela tudo é sóbrio, pacato e discreto. Sem deixar de estar atenta aos problemas da sociedade e das pessoas, a sua postura exala justiça, imparcialidade, assertividade e coerência com os seus princípios.
Foi com ela que aprendi que, respeitar o outro, é todos os dias, em todas as situações, nas grandes e nas coisas mais singelas. E lembro-me logo do dia em que fui com ela tomar o pequeno-almoço, numa manhã soalheira e alegre, o café cheio de gente assomada ao balcão, a atirar os pedidos, em catadupa, para a menina submersa naquela torrente desmedida: quero um café pingado; quero um café cheio; é uma bica com uma pedra de gelo; é uma italiana s.f.f.; quero um abatanado; um café morno s.f.f; uma bica em chávena escaldada; um americano…
E, quando consegui aproximar-me para também aventar, antes perguntei: e tu, Isabelita, como queres o teu? A resposta chegou como um tiro disparado, besuntado de indignação: como vier!
Caí em mim de raspão, esquadrinhada no ridículo daquela cena, a validade dos meus desejos depressa se redesenhou e se dissipou.
Este episódio, já contado anteriormente noutra crónica, revela apenas um resquício da sensibilidade que esta mulher apinha.
Uma mulher que me fascina e que admiro muito. Quando estou com ela, há sempre uma surpresa que espreita.
(Continua)