Em casa eram três, tia e sobrinha, adolescentes com a mesma idade, que cresceram como irmãs de leite, amamentadas pela mãe de uma e avó da outra, viviam para lá da cidade, onde só os esboroados recursos permitiam um abrigo. Apesar de amarelado por dentro e descorado por fora, tinha um pequeno quintal cimentado e um portão a fingir privacidade. Fome não passavam, pão, manteiga, café com leite e ovos eram a base alimentar do dia-a-dia. No final do mês, durante três ou quatro dias comiam bifes dos bons, bolos e até bebiam coca-cola. Depois, nos restantes dias, habituadas à sopa, conseguiam improvisar um inúmero receituário com os ovos: mexidos com tomate maduro, enrolados, tipo omeleta, com cebola, em pastelão com batatas ou e legumes, misturados com azeite, alho e sobras do que quer que fosse, simples, cozidos, estrelados, escalfados com ervilhas ou em água, entre muitas outras formas. Uma panóplia imensa de variedades que as fez fãs destas iguarias até aos dias de hoje.
A escola ocupava-as a primeira parte do dia, sozinhas durante a tarde, discutiam e zangavam-se como autênticas irmãs gémeas. Às seis e meia da manhã, corriam para o autocarro que as levaria até à cidade, para depois seguirem caminho para a escola, a pé, cerca de meia hora. As aulas tinham início pelas sete e trinta e terminavam às treze horas. Muitas vezes, havia que apanhar o transporte no sentido contrário para conseguirem lugar antes de estar lotado e não perderem a pontualidade.
Era uma rotina diária durante todo o período letivo. E, num desses dias, quando o sol se preparava para raiar, cada uma com a sua sacola, lado a lado no passeio acompanhante das vivendas, ainda sonolentas, por onde passavam todos os dias, encontraram um cachorro perdido a vaguear pelo caminho. Ninguém nas ruas, silêncio matinal e, enquanto uma delas fica grudada no bicho a outra desata um relambório de problemas e inconvenientes. Uma centrada na solução, a outra centrada no problema. Discussão corrida, pareceres e interesses opostos, vence a primeira que, num ápice, mete o cachorro na saca, esconde-o e leva-o para a escola, conseguindo mantê-lo incógnito em todas as aulas e em toda a manhã.
Ao chegar a casa, a avó encanta-se com o achado para regozijo da jovem adolescente. Uma apreciação mais atenta revela que afinal não se trata de um cachorro mas sim de uma cachorra que de imediato foi batizada de Tonicha. De porte miúdo, raça basset, mais conhecida por salsicha, cor de mel, com uma alegria contagiante, passou a ser o bijou das três. Com direito a cama, à noite aninhava-se com uma delas atenta aos mimos que recebia. Como na época não se esterilizavam os animais, a avó fez-lhe umas calcinhas para o período do cio. E também se lembram de a ver com uns abanos de tecido nas orelhas, feridas, que a protegiam das moscas. Era uma cadela especial, parceira na alegria e na tristeza, sabia expressar-se através do corpo e do olhar como se fosse falar.
Marcou presença muitos anos e acabou por acompanhar a leva de retornados, vindo para Portugal por alturas do 25 de Abril com a família.
Já se passaram algumas décadas, mas ainda hoje se fala da Tonicha.