Cardus Edição 142, fevereiro 2025
São seis as mulheres que, de diferentes formas, abanaram os recantos mais escondidos e secretos de mim. Recantos embiocados, onde só o deslumbre, a inspiração, o fascínio e o encantamento conseguiram chegar.
A Sónia foi, e continua a ser, uma destas mulheres. Podia ser minha filha, pela idade, mas entrou na carruagem da minha viagem há mais de vinte e cinco anos. Sendo eu uma pessoa insatisfeita por natureza, é com ela que aprendo a relativizar expectativas que, na maioria das vezes, sinto goradas. A Sónia destapa as camadas que embrulham a alegria das coisas. Consegue descobrir a beleza genuína mesmo quando está camuflada e é hábil em multiplicar o pouco em muito. Nunca está à espera de mais e acha tudo bom, mesmo quando não o é. Para si, está sempre tudo bem. Não cobra, não exige, não reclama. Esta capacidade de contentamento e de gratidão constante, abana em mim a consciencialização do que preciso mudar.
Outra característica da Sónia, que cultuo e prezo muito, é a deferência com que se entremeia nos outros. De sorriso desdobrado, é verdadeira nos dizeres e a todos abraça com uma doçura no olhar. Não se zanga com ninguém e desmantela qualquer eventual hostilidade com a leveza de uma gargalhada. Consegue rir-se de si própria e dificilmente se ofende. Convive pacificamente com as suas falhas e dúvidas, mas não abdica das suas certezas.
Não tem irmãos, mas contraria todas as crenças e preconceitos que se associam aos filhos únicos: de egoísta não tem nada; não quer as coisas só para ela, pelo contrário, dá tudo e não fica com nada; não passa à frente de ninguém; é sempre a última a escolher o que quer que seja e, genuinamente, fica feliz com o que lhe calha.
Não conhece a inveja, não sabe o que é o ódio e não sabe dizer não.
A Sónia não é só uma boa pessoa é uma pessoa boa, uma mulher inteira, firme nos seus princípios e valores. Não desiste para atingir objetivos, não discute, mas vai em frente.
Mãe galinha, comungo com ela o amor imensurável e incondicional pelos seres que trouxe ao mundo: os meus primeiros netos.
Tenho um enorme carinho e admiração por esta mulher. É para mim uma inspiração, é a confirmação de que podemos ser, sempre, uma pessoa melhor.
(Continua)