Home Cardus Edição 15, novembro 2025

CRÓNICA

Malisca

RENZILHAS E CONTRARIEDADES

Ao ver a sua neta, hoje, a efundir felicidade enquanto governava a chusma de malas, sacos, almofadas e traquitanas que transportava do carro para o quarto acabadinho de arrendar, no terceiro andar de um prédio vizinho à faculdade, no lado de lá do rio, lembrou-se dos seus tempos de menina moça, há muitos anos contados, e muito muito longe dali.

Tempos que deixaram bem lacrada a chancela da sua vida, depois de cirandar  por diferentes cidades, acompanhando a mãe, que por sua vez acompanhava a filha mais velha para viver com ela e sua família, porque não tinha meios que lhe permitissem sustento e autonomia desde que ficara viúva.

Eram muitos lá em casa, pelo que desde tenra idade se habituara a desengatar tarefas do dia-a-dia. Com treze anos, para além dos afazeres normais, sabia, sem embaraço, depenar e destripar frangos como quem salta à corda ou joga à Macaca. E, aos sábados à tarde, com afoiteza, depois de horas e horas na cozinha, ataviava a arca congeladora com dúzias de croquetes e rissóis de camarão. As manhãs estavam reservadas para as limpezas, das quais a mais afanosa e aborrecida era o branqueamento das escadas de pedra, encardidas de vermelho, que tinham de ser esfregadas todas as semanas, à mão, com escova de cerdas de piaçava e Pó Vim. A porta, a espreitar a rua de terra batida, deixava entrar a poeira argilosa que teimosamente besuntava de encarnado todo o caminho, da entrada até lá acima sempre que alguém entrava.

A irmã, dezoito anos mais velha, era também sua madrinha, não a tratava por tu e, como dona da casa era quem comandava o leme. A mãe, apesar de muito rezingar, não tinha poder de decisão, passando o tempo a congeminar formas para conseguir um espaço seu, onde pudesse pôr e dispor as suas vontades.

Por esta altura eram quatro os adolescentes a viver sob o mesmo tecto. No entanto, as regras, os hábitos ou as propostas de oportunidades não tocava todos  de igual forma, originando  renzilhas e contrariedades amiúde.

Para a mais nova o ballet e o piano ocupavam os seus tempos livres, para as outras duas, a cozinha, a costura, a lavandaria e a limpeza da casa eram a promessa de mulheres a segurar um futuro. O rapaz estava isento de qualquer uma destas atividades e por escolha própria experimentou natação, hóquei em patins e judo.

Não tinha idade para entender as desigualdades que floresciam à sua volta, mas sentia profundamente o desejo de não fazer parte delas. Ao mesmo tempo a mãe sacudia-se das  impotências e das dificuldades.  O balcão de uma padaria garantia-lhe alguma sobrevivência e, apesar de uma  frágil estabilidade mas com a certeza de uma maior  liberdade, foi viver com ela para o musseque. Ali todos bebiam a mesma água e o sol a todos aquecia por igual.

Hoje, está feliz por poder partilhar a alegria com os netos. As vivências do passado transformou-as em ferramentas, armas  que sustentam a sabedoria, a resiliência e a sua força de viver.