Cansada de ver a mãe sem meios de sustento, a viverem as três no musseque, numa casinha com tetos baixos onde o calor atormentava o corpo e as baratas punham a mente a fervilhar, resolveu deixar a escola para se atirar ao mundo do trabalho.
Tinha dezasseis anos, estava a meio do primeiro período do antigo sexto ano do liceu. Respondeu a todos os anúncios que encontrou no jornal A Província de Angola, um jornal diário de folhas enormes que acompanhava a vida da terra.
Numa altura em que o analfabetismo atingia a grande maioria da população, não lhe foi difícil receber ofertas e propostas de emprego, apesar da tenra idade e da total falta de experiência.
Algumas entrevistas, perguntas e acertos, a escolha foi a FILDA (Feira Internacional de Luanda) a ganhar 900 escudos, para trabalhar na secretaria.
Sem saber datilografia, arrumadinha numa sala sem janelas, amarelada, encostada a muitas outras, começou por dedilhar teclas numa velha máquina de escrever para encontrar preceito.
Não tardou muito tempo, foi logo que findou o período do arrebite, da novidade e da descoberta que o entusiasmo foi esmorecendo para se transformar num poço de tédio. Rapidamente percebeu que estar fechada num escritório, envolta em papéis, atarraxada a uma secretária não era, decididamente, o que queria fazer na vida. Mas também percebeu que não poderia voltar atrás, pelo menos até a mãe conseguir endireitar as contas.
Uma chusma de papéis na sala do arquivo, a aguardar arrumo em dossiês de cartão cinzento, foi outra atividade que aprendeu com enfado. A sala, atrás da última, num canto bolorento, desprovido de qualquer atrativo, expunha pastas e pastas de documentos caducados, adormecidos em datas passadas, que garantiam o ninho da bicharada escondida. Assim que lá foi enfiada, com a lista de regras e procedimentos a destinar o caminho de cada carta, cada fatura, cada recibo, cada relatório, cada papel de um rol sem fim, sentiu as narinas a fecharem-se, os olhos a franzirem-se, a boca a enrilhar e o coração a murchar com uma vontade enorme de sair dali para fora e correr, correr, correr, olhar o céu, agarrar o sol, abraçar o vento… respirar.
Mas chegado o final do primeiro mês, chegou também a compensação e pôde comprar uma geleira. Metro e meio de grande beleza, branquinha na cor, nova no modelo, transparente no plástico das prateleiras, toda ela disponível para ser apetrechada e precatar a frescura dos alimentos.
Numa cidade, onde nove meses do ano o calor e a humidade se excedem e maltratam tudo o que tocam, este bem é vida.
No cantinho da pequena cozinha engalanava o espaço e destoava do fogão a petróleo e dos restantes tarecos que eram nenhuns.
Ao longo do tempo, não houve outra aquisição que tivesse florescido tanto em regozijo como o que este pequeno frigorífico granjeou.
Só mais tarde retomou os estudos, mas com o virar do 25 de abril e no meio da independência do país, as vicissitudes e os anos correram sem parar e foi muito depois que conseguiu acabar a licenciatura que a libertou de escritórios e papéis.