Home Cardus Edição 151, novembro 2025

CRÓNICA

Malisca

Naquelas Férias

Quinze anos, um coração a entornar sonhos e muita vontade de dar a volta a uma vida de privações.

As férias “grandes” já se abeiravam do fim. Nesses quase três meses sem escola esteve comprometida a tomar conta da casa da irmã mais velha, sua madrinha, e dos sobrinhos.

Limpar, arrumar, cozinhar, lavar e passar a roupa a ferro, foram a sua ocupação de todos aqueles dias. O padrinho, mecânico de profissão, semanalmente mudava de fato-macaco, um pesadelo sempre que os vestígios de óleo teimavam em ornar os bolsos e as pontas das calças. A máquina, semiautomática, pedia mudança manual da água e, recostada à parede do jardim da casa vizinha, deixava à espreita os três jovens, que lá viviam, sempre em grande algazarra a divertirem-se na piscina. Inquieta, com os olhos postos no trabalho e ao mesmo tempo na rapaziada, sonhava com uma casa linda, sua, sonhava com o futuro, sonhava com o amor.

Todo o zelo e esmero somados foram compensados com magra maquia, quinhentos escudos, entregues só no último dia, não fosse o ganho baralhar o aprumo.

Por aquela altura, o tempo era de contenção e os valores tinham outro valor. Com o seu quinhão decidiu comprar um par de sapatos, um soutien e quatro cuecas.

Ficou feliz, apesar da mãe e algumas pessoas próximas terem sido contra este desígnio. Quis aceitar, entendeu-o como um desafio e uma prova de superação e não como algo com sabor a suborno, conforme alvitravam. Estava também aliciada pela oportunidade de poder saborear algumas noites a dormir num quarto sem ratos a correr pelas vigas de madeira num tecto de telhas, como acontecia no musseque onde vivia, nos arredores da grande cidade.

Sabia o que queria, mas não deixava de ser uma adolescente, com todas as perfeições e imperfeições, características desta idade, tão comuns no processo de crescimento e na luta pela autonomia e independência.

E foi já no final desta “aventura” que toda a sua postura de menina mulher se esboroou num desgosto que não soube disfarçar nem esconder.

Incumbida de preparar o jantar de despedida, para oito pessoas, os da casa, a mãe e irmã e um amigo muito chegado que acabara de regressar da Graciosa, as férias de quatro em quatro anos na Metrópole, que as famílias, a residir nas então colónias portuguesas, tinham direito, ficou eufórica.

O amigo trazia lembranças para todos, mas sabia que, de todos, ela era a mais especial para ele e, por isso, o seu presente também seria especial, tinha a certeza e, desde logo, a espera enleou-se a uma grande alegria e agitação.

O jantar, aprimorado com o entusiasmo e regozijo do reencontro, foi preparado com o requinte que a ocasião afigurava.

Sobremesa nos pratos e eis chegado o grande momento para a distribuição dos mimos. Não foi a primeira a ser contemplada, o amigo prendia dentro de si o alento de a agradar e quis brindar primeiro todos os outros.

A demora foi aumentando cada vez mais a expectativa, como se em cada minuto passado se concentrasse naquela oferta todo o encanto e magia existente na Terra.

Chegada a sua vez, as mãos suaram, o coração acelerou, as faces ruborizaram…

 …e depois a respiração parou.

O embrulho escondia um Galo de Barcelos que, agora aberto, escancarava toda a decepção depositada na ilusão de um presente.

Não soube disfarçar o descontentamento, mas ele percebeu a importância que tinha para ela e dois anos mais tarde uniram as suas vidas.