Não tinha mais que oito anos e, desde os sete, ia para a escola sozinha. A Escola nº. 32, ficava na alta de Nova Lisboa, quase ao lado da Polícia onde mais à frente morava o Hospital. Vivia na baixa, atrás do mercado, na Rua Garcia da Orta, uma paralela à Rua Vicente Ferreira, onde, mais acima, se situavam três dos ex-libris da cidade: o Cinema Ruacaná, a loja de moda Nova Yorque e a Pastelaria Diana. Beber uma canada dry e comer um bolo, ver as montras embandeiradas com as últimas novidades ou ir ver um filme era mirífico. Cada gole, cada dentada, cada olhar, cada cena, cada imagem, deixavam-na como se fosse um balão suspenso no ar, imersa na magia da felicidade.
Tinha de subir a granja e passar por um descampado, onde figurava a Escola Industrial, para lá chegar. Meia hora de caminho se fosse direitinha casa/escola, escola/casa. Mas não era o que sucedia.
Na volta para casa, o parque ao lado estendia um lençol de atrações, como se fosse um íman, e era para lá que corria, tomada pelos encantamentos de criança. Baloiços, escorregas, lagos com repuxos, relvados bandeirosos, árvores enfatuadas, jardins coloridos e até uma biblioteca, compunham este espaço infantil que alentava todo o seu universo imaginário.
Naquele dia, ao dirigir-se para lá, depois de cumprida a presença em sala de aula durante toda a manhã, deparou-se com um amontoado de gente à porta da casa que ficava mesmo ali, na esquina. Curiosa, afrouxou o passo, encavalitou a sacola, que acolhia os livros, o caderno, os lápis e a borracha, junto às costas e ficou a espreitar, mantendo-se alerta. As mulheres, com túnicas airosas roxo-púrpura, que escorregavam lentas por elas, tinham os cabelos negros escondidos em lenços bordados e deixavam transparecer sinais vermelhos pintados na testa. As mais novas vestiam o azul das sedas e o brilho das lantejoulas, concentradas nos rituais da sua cultura, acreditando enganar a dor, entoavam cânticos que se ouviam cá fora no passeio e chamavam o olhar dos transeuntes que, por respeito, baixavam a cabeça e seguiam caminho.
Parada, junto ao portão do muro baixinho, tentava descobrir os traços do acontecimento e entrou. Foi então que viu, deitada num caixão aberto, como uma princesa adormecida envolta por um manto real, guarnecido de brocados, tules e flores, como as que contemplava nos livros de histórias, uma mulher muito nova, com cabelos negros compridos, morena de pele macia e linda. Deteve-se muitos minutos a olhar para ela, presa em tamanha beleza e serenidade. Sem perceber a razão dela ali estar, mil histórias imaginou, mil histórias indagou, numa corrida desenfreada de pensamentos e fantasias. Colou esta imagem para todo o sempre dentro de si e, ainda hoje, quando o pensamento corre para lá, é como se estivesse ali ao vivo, na sua presença.
Era a esposa do Dr. Chembu Desay, conceituado médico indiano, acabara de morrer de parto e deixara duas crianças pequenas.
Nunca mais esqueceu, foi a primeira pessoa morta que viu.