Em breve, já amanhã, ou depois, as aranhas dançarão pelos espaços, livres, todos. E lá fora, no quintal, as silvas, agressivas, sem parcimónia, mas com pressa, tomarão o jardim como se fosse um assalto.
Não subirei as escadas, a força e a pertinência serão ausentes, e todas as histórias guardadas em cada canto ficarão, sem tempo, suspensas na memória.
As coisas, as mais belas, as que fizeram luz e alegria em tantos dias, estarão por lá até o destino se lembrar novamente delas. As outras, de menos encanto, mas ricas em contos no cotejo, como as panelas, as frigideiras, as taças ou as travessas, dormirão encostadas no armário fechado, amuadas umas com as outras.
O chão, estará finalmente liberto de sapatos e toalhas espalhadas, não mais se inquietará com a areia da praia.
Nem os frigoríficos esconderão as uvas, que agora mirradas sobejam, e também as laranjas ou o pão. Já não se abrirão.
O silêncio surpreender-se-á com os sussurros do sol na partida firme para outros lugares, com geografias distintas e distantes.
É noite, a cada instante, o futuro acabou de chegar.