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CRÓNICA

Aida



Crónica publicada originalmente no jornal Milénio de Toronto (Canadá).


NATAL DAS COISAS SIMPLES


Quando recordamos os natais passados,
descobrimos que são as coisas mais simples
 que nos oferecem os maiores momentos de felicidade.

Bob Hope, comediante americano


Rabanadas

O espírito de mais uma quadra natalícia há muito se instalou por todo o lado, nas suas mais variadas vertentes: música, decorações, brilho das luzes, ritmo de vida mais acelerado e até alguma crispação em resultado das vésperas que se aproximam a passos largos. Nenhuma autarquia fica hoje indiferente a estas festividades e tudo faz para as promover e inscrever nos seus programas de rua, de acordo com o orçamento de que cada uma dispõe. Claro que não podemos competir com os mercadinhos de Natal dos países europeus do Norte, mas, timidamente e por mimetismo, estamos a instalá-los por todo o lado na esperança de que um dia venham a ter a mesma visibilidade turística. E como somos sempre muito bons a copiar e a importar práticas alheias para alegria das crianças, não nos faltam pistas de gelo artificial a nascer em vários espaços públicos.

O Natal da minha infância foi sempre vivido num clima quente, mas as memórias dos meus pais e dos meus avós maternos, bem como os postais recebidos dos familiares, sempre me transportaram para cenários de frio, neve, lareiras, fogueiras de rua e gente muito encasacada. Nunca escondi que o Natal é a minha época preferida do ano, tendo sempre sabido viver entre estes dois natais: o do espaço onde cresci e o das memórias que me foram incutidas. Por isso, por mais críticas que oiça ao consumismo, à azáfama descontrolada de loja em loja em busca da última oferta, à música repetida até à exaustão, não há como reprimir a criança que em mim exulta indiferente a todos estes constrangimentos.

Se as decorações e a música sempre ocuparam lugar de destaque, a gastronomia, em especial a doçaria, continua a ser uma fatia especial da minha memória afetiva. A cozinha lá de casa, onde a minha mãe era senhora e rainha, ganhava um cheiro especial na época do Natal – a massa frita das filhós, açúcar e canela.

Se os odores e os sabores são as inconfundíveis campainhas que nos transportam ao nosso passado, então elas carimbam o passaporte seguro para o regaço de minha mãe. Para além das filhós e da aletria (usada nas Beiras em vez do arroz doce), outra sobremesa típica daqueles dias eram as rabanadas, feitas com o pão de cacete comprado de véspera. Não sei se conseguem imaginar como era difícil manter toda esta doçaria afastada da tentação das crianças que, a toda a hora, atravessavam a cozinha, na esperança de poderem transgredir e iniciar qualquer prova antes do tempo. Eu, como mais velha, e com a responsabilidade de ajudar minha mãe nestas tarefas, tinha o privilégio de rapar o tacho da aletria, provar a primeira filhó enquanto as salpicava de açúcar ou, ao passar as rabanadas por canela e açúcar, levar à boca as pontas do cacete que, por serem pontiagudos, não ocupavam lugar na travessa para serem servidos à mesa. Hoje, rabanada que se preze exige garfo, faca e colher, em virtude de ser bem regada com uma espessa calda de açúcar. Na nossa casa, a calda nunca fez parte da receita, pelo que as retirávamos da travessa sempre à mão, como acontecia com as filhós, que minha mãe fazia pequenas para renderem mais.

Esta era a doçaria que nunca faltava na mesa da minha infância natalícia. O bolo rei entrou muito mais tarde, por força das pastelarias que começaram a exibi-lo nas montras e que minha mãe passou também a incluir na ementa da consoada. Mas, por mais variada que seja a confeitaria de uma mesa de natal, eu mantenho-me rendida a esta trilogia básica porque é ela que continua a habitar a memória de um tempo sem idade.