Home Cardus Edição 160, agosto 2026

CRÓNICA

Aida



Crónica publicada originalmente no jornal Milénio de Toronto (Canadá).


(DES) ENCONTRO DE GERAÇÕES


Um povo que não cuida das suas crianças e dos avós é um povo sem futuro
porque não tem a força e a memória para continuar em frente.

Papa Francisco, Discurso em Filadélfia, 2015


As mais recentes notícias dão-nos conta de que o processo de imigração permanente de pais e avós, designado como reencontro familiar prolongado, será de ora em diante mais difícil, por ter sido suspensa a receção de novas candidaturas a partir deste mês. Ao contrário do que acontecia, o governo criou o chamado “Super Visto” que permite estadias até cinco anos consecutivos por entrada, que poderão ser estendidas até um total de dez anos. O denominado IRCC (Immigration Refugees and Citizenship Canada) adotou esta medida devido ao elevado número de processos pendentes até agora acumulados. Assim, e com vista a estabilizar o sistema, apenas estão a ser processados os pedidos já existentes. Para se poder obter o Super Visto, além de ser necessário que os filhos ou netos residentes no Canadá cumpram um limiar mínimo de rendimento que possa garantir o suporte financeiro familiar, é ainda obrigatório ter um seguro de saúde privado válido e contratado junto de companhias seguradoras devidamente aprovadas. 

No espaço da minha crónica, admito que não devo pronunciar-me sobre opções tomadas pelo governo canadiano. Contudo, e pensando na Comunidade Portuguesa, não posso deixar de assinalar que sou mais sensível à questão do reencontro entre avós e netos, que a imigração separou, precisamente porque no domingo, dia 26, se celebrou em Portugal o Dia dos Avós. É, por isso, imperativo que estes reencontros não se transformem em desencontros, já que os netos - crianças ou jovens - aprendem com os avós a valorizar a sua história pessoal e coletiva. 

Sabemos o quão importante é o papel dos avós nas nossas vidas, até para aqueles que nunca tiveram a felicidade de com eles privarem fisicamente. Mesmo que não os tenham conhecido, a verdade é que eles vivem do poder das narrativas que lhes são transmitidas, ao ponto de a elas se referirem com a frequência de quem foi contemporâneo delas. 

A nossa muito saudosa Maria Barroso, no prefácio que escreveu para o livro “Passos de Nossos Avós” (organizado por mim e Manuela Marujo), considera os avós como pilares fundamentais no processo de formação dos netos, tendo em conta todo o apoio dado ao seu desenvolvimento como cidadãos ricos de valores que, postos em prática, os tornam portadores de princípios que farão deles pessoas mais conscientes e responsáveis. Não é por acaso que, de tantos testemunhos recolhidos, os netos retratam os seus avós como guardiões de geografias e fontes históricas, onde habitam as tradições nacionais, regionais e locais, que representam épocas e maneiras de ser e de estar de um determinado espaço e tempo. 

Nunca será demais repetir que eles não são apenas guardiões de memórias, mas verdadeiros transmissores de um inestimável património imaterial que se traduz em sabores de comidas há muito esquecidas, odores de um tempo antigo, expressões arcaicas que já não se usam, orações que afastam o quebranto e espantam espíritos, canções que acompanhavam tanto as tarefas domésticas como os trabalhos no campo, lengalengas e trava-línguas que desafiam a memória dos tempos, crenças inusitadas, mas que transportam uma trajetória familiar identitária. Manter vivo este repertório é importante para mantermos vivas as lições do passado e moldarmos um futuro mais consciente, ligado aos nossos valores mais profundos que nos dão um retrato das dinâmicas sociais de diferentes épocas. 

E porque os avós são sempre uma ponte entre o presente e o passado, a modernidade e a ancestralidade, numa troca interativa de saberes, seria do mais elementar bom senso que o convívio entre avós e netos não fosse dificultado por questões burocráticas que travem a esperança de um convívio que, depois de perdido, o tempo nunca poderá recuperar.