Home Cardus Edição 147, julho 2025
Aida




Crónica publicada originalmente no jornal Milénio de Toronto (Canadá).

COMO PRATICAR A SORORIDADE

A morte da empatia humana é um dos primeiros sinais
de uma cultura prestes a cair na barbárie

Hannah Arendt


À medida que vamos envelhecendo, o nosso campo lexical vai-se alargando em novas aquisições linguísticas que não se prendem apenas com os neologismos. Estas podem ter a ver com modas ou certas alterações decorrentes da dialética de determinados movimentos sociais. Recordo que, nos meus tempos de estudante, tive formação latinista, acentuada pelo facto de ter frequentado um colégio de Doroteias. A palavra “soror” era-me, portanto, familiar. Porém, sempre nos referimos às nossas professoras como Irmãs, tratando-as apenas pelos apelidos.

A palavra irmandade, que me era íntima, foi, muito recentemente, em busca da sua raiz etimológica - sororidade – para ganhar contornos ideológicos e ficar colada aos movimentos feministas, como se houvesse necessidade de “artificialmente” unir mulheres em prol de um ideário comum. Quem me conhece, sabe que há muito estou ligada a iniciativas que se debruçam sobre o estudo e importância do papel das mulheres em sociedades vincadamente marcadas pelo patriarcado. Inúmeros têm sido os artigos, comunicações, intervenções e publicações sobre o tema. A minha posição é, desde há muito, sobejamente conhecida sempre que se levantam questões que se prendem com o empoderamento das mulheres. Sou a favor da igualdade de direitos, e sublinho direitos, porque sempre acreditei que os universos masculinos e femininos são diferentes, tanto do ponto vista biológico como emocional.

Se hoje me proponho tratar deste assunto é porque assisti recentemente a uma prova irrefutável do que é viver a sororidade, enquanto união, solidariedade e apoio mútuo entre mulheres, muito semelhante à relação de irmandade, mas sem qualquer conotação ideológica. Estive em Fall River (Massachusetts), Estados Unidos da América, de 2 a 11 de junho passado. Fiquei hospedada em casa de Alda Moniz, imigrante açoriana de S. Miguel, uma mulher admirável que disponibilizou a sua mansão (como a organização lhe chamou) para acolher 30 pessoas (entre estudantes e professores) provenientes da freguesia de Rabo de Peixe, S. Miguel, que se deslocavam numa viagem de estudo. Podem imaginar o que é ver, graças à generosidade da sua proprietária, uma casa transformada em hospedaria de um dia para o outro. “Enquanto uns contam carneiros para adormecer” - confessou-me a Alda – “de cada vez que me ia deitar, eu só contava camas e colchões.” Pensemos na logística necessária para, logo pela manhã, servir pequenos almoços, que de pequenos só tinham o nome porque não lhes faltava nenhuma das iguarias contempladas pelos dos hotéis de várias estrelas. Como era possível, em pouco mais de meia hora ter toda a gente pronta e preparada para sair a fim de cumprir o plano programado para cada dia?

Pois bem, a resposta esteve precisamente num conjunto de outras mulheres, igualmente açorianas e da mesma ilha, de que destaco pela assiduidade, a Lois Faria, a Teresa Barganha, a Maria Tomásia e a Gabriela de Melo, que todas as manhãs, saindo do conforto das suas casas, madrugavam para irem em busca de produtos frescos e os servirem aos convidados.

Observando-as todos os dias, até na forma como se organizavam na ajuda, interroguei-me sobre este tipo de sentimento, totalmente despojado de qualquer interesse que não seja o da entreajuda, amizade e empatia, em prol do bem comum.

Tenho a certeza de que se estarão a interrogar: “E não houve ajuda de homens?” Sim, houve, mas prendeu-se sempre com um outro lado considerado mais masculino, como era o caso das deslocações, transportes e oferta de refeições. Ou seja, por mais lutas que existam, por mais conquistas que se façam, o gineceu, por definição, será sempre um espaço de compromisso entre mulheres, onde se tecem laços de cumplicidade – a verdadeira e genuína sororidade, que domina também os espaços da nossa diáspora.

Foi muito bonito de ver e viver, Alda! Obrigada.