O que é vivo não tem cópia. Duas pessoas, duas roseiras, não podem ser iguais.
E onde a violência tenta apagar a variedade e a diferença, a vida extingue-se.
Vasilij Grossman
Tenho a felicidade de já ter vivido bastantes anos e passado por vários países. Em alguns, estive na condição de turista; noutros, por razões de natureza profissional. Foi nesta última condição que tive o privilégio de trabalhar numa das cidades mais multiculturais da América do Norte – Toronto - com mais de 50% da sua população nascida fora do Canadá e cerca de 180 línguas faladas. Foi lá que, pela primeira vez, me foi dada a oportunidade de, no terreno, estar em contacto com uma grande diversidade de culturas que, entre si, conviviam de forma pacífica, respeitando-se mutuamente. Entre elas, a comunidade portuguesa que, livremente e em vários locais, se podia fazer ouvir através das mais variadas manifestações de caráter religioso, económico e social. O mesmo acontecia com todas as outras, e são muitas, independentemente da sua origem, grupo étnico ou credo, concentradas em bairros facilmente identificáveis no tecido urbano, por todo o tipo de comércio e restaurantes representativos das suas culturas.
Foi, portanto, em Toronto, que o conceito de “alteridade” saiu dos compêndios por onde tinha estudado para o ver praticado no respeito pela individualidade e singularidade do “outro” nas suas vivências e pensamento próprio. Foi lá que aprendi a sair da minha bolha para, num espaço de diálogo e tolerância, aceitar todas as formas de ser e de estar. Foi lá que, pela primeira vez, entrei em transportes públicos conduzidos por motoristas de turbante; que recebi nas aulas alunas vestidas de “sári” e outras de “hijab”; que vi no campus universitário jovens árabes a envergar as suas longas túnicas brancas ou jovens judeus de cabeça coberta com o respetivo “kipá”, usando as suas típicas vestes negras. Nunca me apercebi de que as vestes com que cada um circulava ou se apresentava nas aulas, fosse impedimento para uma saudável convivência entre a massa estudantil e docente, numa província onde a cultura dominante é de base anglófona.
Vem esta introdução a propósito do que passou por estes dias no meu país. Uma jovem muçulmana, de 26 anos, usando hijab e máscara cirúrgica aproximou-se de um autocarro da Carris para entrar. O motorista pediu-lhe primeiro que retirasse a máscara, o que é já por si um pedido inusitado, já que, após a pandemia, é frequente vermos algumas pessoas a utilizar este método preventivo de proteção do utente ou de terceiros. Não satisfeito com o facto de a jovem ter anuído ao seu pedido, de seguida, o motorista exigiu-lhe que retirasse o véu. Face à recusa, foi negada à jovem a entrada no autocarro.
É assim que está a nossa Lisboa, pejada de gente sem cultura, sem mundo, vestida de preconceitos contra quem é diferente. Tivessem estudado um pouco mais e lido umas passagens de Fernão Lopes, o cronista-mor do reino, e saberiam como ele retratou a Lisboa do século XV – “uma grande çidade de mujtas e desvairadas gentes.” Ou seja, há mais de cinco séculos, Lisboa era uma das cidades mais cosmopolitas do mundo, repleta de estrangeiros que fizeram dela um grande centro comercial e político.
Os mesmos grupelhos que enchem a boca com slogans patrióticos, que embandeiram em arco com frases de termos dado mundos ao mundo, são precisamente os mesmos que nunca tiveram mundo por continuarem a viver no perímetro de um reduto de ignorância a que estão aprisionados. Para eles, uma burka e um hijab são a mesma coisa e não sabem a diferença porque, como os burros, adotaram dois antolhos que lhes retira o campo de visão para as diferentes realidades.