Home Cardus Edição 155, março 2026

CRÓNICA

Aida



Crónica publicada originalmente no jornal Milénio de Toronto (Canadá).


CORRENTES DESCRITAS


(…) o criador tem sempre o recurso à criação como anestésico,
como analgésico, como salvação.

Eugénio Lisboa


Correntes Descritas

Em virtude de ter tido uma educação católica, desde muito cedo me habituei a determinadas correntes que, para terem efeito ou alcançarem o objetivo desejado, não deveriam ser interrompidas. Organizadas à volta de um tema de caráter religioso, eram compostas pelas mais variadas orações (de acordo com a figura que se pretendia homenagear), que iam da Ave Maria ao Pai Nosso, podendo ainda contemplar outras menos usuais. Além das orações, a iconografia também era usada, traduzindo-se na circulação de “santinhos” e pagelas, tradicionalmente impressas para determinadas ocasiões festivas. Ao longo do tempo, fui abandonando todas estas práticas, tendo a componente religiosa da minha vida passado a uma espiritualidade, mais vivida na intimidade, longe dos rituais de exposição pública.

Entrados no advento das redes sociais, surgiu um outro tipo de correntes que, com frequência, nos caem nas várias aplicações que temos. Subjacente, está sempre a mesma fórmula – enviar a não sei quantas pessoas (o número é variável) sob pena de sermos amaldiçoados ou o desejo não se concretizar, no caso de as ousarmos interromper. Por princípio, nunca dou andamento a este tipo de correntes e, até ao momento, ainda não senti que tamanha infração tenha alterado o curso dos meus dias. Pelo menos ainda não dei por isso. Eles seguem a normalidade habitual, testemunhando que continuo a ser dona do meu destino, sem me deixar influenciar por estas aves de mau agouro.

As únicas correntes a que me mantenho fiel, e que tudo faço para as seguir, ininterruptamente, enquanto a minha mobilidade mo permitir, são as Correntes d’Escritas na Póvoa de Varzim, este ano na sua 27ª edição. Entrado o Ano Novo, começa o corrupio dos contactos com aqueles que também querem estar presentes nesta romaria que congrega as maiores vozes do universo literário ibérico. São elas que garantem muitas horas de valor acrescentado às vidas que, durante uma semana, tudo largam para dizerem “presente”, por não conseguirem também ficar indiferentes à força destas correntes. Este é o único proselitismo em que de bom grado embarco, na certeza de que no mar da Póvoa estará sempre a barca que nos levará ao paraíso das letras.

São manhãs, tardes e noites preenchidas com as mais variadas atividades: mesas de debate no auditório, sujeitas a um mote; visitas a diversas escolas com alguns dos autores convidados; lançamento de livros com a presença dos escritores, editores e críticos literários; sessões de poesia, projeção de filmes, feira do livro, com a facilidade de termos os autores ali à mão para lhes pedir um autógrafo.

As comunicações são quase todas de grande qualidade, e o mote dado a cada convidado serve para lhes espevitar a imaginação e criatividade. É sempre interessante constatar a forma como cada desafiado pega no tema, dele fazendo as mais variadas leituras. Perante a perplexidade inicial de alguns (publicamente confessada), há quem olhe para a frase, sem rodeios, para a partir de aí desenvolver uma ideia; quem elabore ensaios de natureza histórico-filosófica; quem opte por textos poéticos ou prosa poética, colagem de textos de fontes diversas ou, ainda, quem se enrede num jogo provocatório de palavras virando do avesso o que havia sido proposto. A profundidade dos temas não impede o exercício da arte de conversar, marcada aqui e ali por registos de humor, feitos de uma forma muito inteligente que, em determinados momentos, desencadeia gargalhadas soltas e genuínas.

Se eu tivesse de reduzir cada edição a uma só palavra, escolheria o adjetivo “mágico”, porque são verdadeiramente mágicos os dias ali vividos.

Na hora da despedida, recordo o poema de Alexandre O'Neil: “Os domingos de Lisboa são domingos difíceis de passar”, a que dou uma outra versão - “Os dias da Póvoa são dias difíceis de olvidar”.