Entre todas as virgindades,
nenhuma é tão sagrada como a de uma página em branco.
Jacinto Benavente y Martinez, dramaturgo espanhol
Era um fim de tarde quente, como têm sido os últimos entardeceres, desde que o verão se fez anunciar nesta sucessão de temperaturas altas. No dobrar de mais um segundo, ouvi soar o telemóvel. Uma mensagem seca, como a pancada da viatura que de costas te atirou ao chão. Havias sido atropelado perto de casa. Precisava de detalhes, de ir ao pormenor da desgraça, mas nada mais se sabia ainda além de que estavas internado no hospital.
O tempo, mesmo que curto, foi de longas esperas. À medida que as horas iam passando, a informação ia também correndo a conta gotas. Nos tubos que te ligavam à vida, passavam gota a gota os fluídos que te mantinham em coma induzido. Passaste a habitar uma espécie de limbo, à margem de qualquer interação com o mundo que te rodeia. Interrogamo-nos, interrogamos os médicos, os enfermeiros de serviço. Pedimos respostas, mas só recebemos silêncios. Silêncios quanto ao futuro incerto que ninguém pode prever, muito menos adivinhar. No espaço onde te encontras, uma parafernália de equipamentos envia toda a informação para os inúmeros ecrãs a que estão ligados, mas não existe nenhuma bola de cristal.
Eles sabem tudo, eles sabem tudo, pensamos nós, embora bem no mais íntimo, saibamos que, nestes momentos, eles não sabem nada. Eles não sabem nada do que queríamos ouvir.
Talvez saibamos mais nós da tua grande vontade de viver, porque sempre acreditámos em ti, sempre te conhecemos como um lutador, sempre acompanhámos a tua vontade de vencer a doença de que há tantos anos padecias, nunca vimos em ti um desistente quando numa outra cama de hospital te vimos lutar contra um tumor no cérebro, ganhando pequenas, mas muito bem-sucedidas vitórias diárias contra os reveses da vida.
Diariamente és visitado, duas vezes por dia. Fazemos-te festas para que sintas o calor da nossa pele na tua pele, apertamos-te a mão na esperança de uma resposta, falamos-te ao ouvido, pedimos-te sinais, um qualquer que dê a entender que nos ouves, que sabes que estamos ao teu lado e do teu lado.
Estamos todos a viver a virgindade desta página em branco sem sabermos como agir. Mas falamos-te do antes e do depois da queda fatídica, do passado e do futuro, na ânsia de que voltes a habitar o que já viveste e o que ainda tens para viver. Dos dias programados na Costa da Caparica, para onde irias no dia seguinte com a Tina e onde, para além dos banhos de mar, fazias longas caminhadas; da semana que havias pedido para passar no Sardoal; da viagem planeada para, com um grupo de irmãos, passares o Natal em Benguela, teu berço, um sonho há tantos anos acalentado; das glórias do teu clube do coração, o Benfica, que te fazia vibrar com as suas vitórias atrás de vitórias; de tantas outras situações comezinhas que te divertiam. Pequenos nadas que quebravam a monotonia dos teus quotidianos vividos na solidão de quem nunca constituiu a sua própria família. Mas tinhas amigos por todo o lado, já que a tua simpatia era o lastro que largavas por onde passavas.
Todos eles enviam saudações, perguntam por ti, desejam melhoras, mandam correntes de energia positiva, mas, mais do que isso, exigem que acordes, que voltes até eles, que saias da inconsciência a que o coma te levou.
Pouco percebemos da escala de Glasgow. Os seus números são meros indicadores que nada dizem da saudade imensa de te não termos. De como és agora a folha em branco, onde todos queremos imprimir os pequenos gestos do teu acordar.
Até agora, cada dia é apenas a véspera do amanhã vitorioso por todos tão desejado.
P.S. Como é habitual, envio a crónica à terça-feira, depois de ter visitado o meu irmão Zeca. Foi a última véspera do amanhã que não trouxe o desejado dia vitorioso, mas a notícia da sua partida, na manhã de quarta, 20 de agosto.