Home Cardus Edição 157, maio 2026

CRÓNICA

Aida



Crónica publicada originalmente no jornal Milénio de Toronto (Canadá).


ANÚNCIOS DE PRIMAVERA


Os poderosos podem matar uma, duas ou três rosas,
mas jamais conseguirão deter a primavera inteira.

Desconhecido


Lobo Antunes

Sempre que em Portugal irrompem os sinais da primavera, lembro-me de Toronto.

Da cidade que deixei e aquela a que regresso em namoros fugazes de ocasião, onde registo uma ou outra alteração de pormenor, sem que, no entanto, a sinta desfigurada; dos espaços anteriormente percorridos nos automatismos que os vínculos laborais diariamente me exigiam; dos amigos mais íntimos, para quem não tenho mãos a medir para satisfazer convites e solicitações, prova inequívoca de que as amizades fortes não se desfazem com a ausência; dos rostos que continuam a habitar a galeria dos conhecidos, mesmo que o contacto nunca tenha passado de um cerimonioso cumprimento ou aperto de mão; dos eventos que continuam a celebrar a pujança de uma comunidade, onde novos elementos despontam para dar continuidade aos valores já consolidados; dos cafés e das pastelarias, num roteiro de sons, cheiros e sabores, a lembrar estabelecimentos de bairro fixados no tempo; dos jornais, ainda que vestidos de novos nomes, a distribuir notícias internacionais e locais, calendários das jornadas de futebol sempre atualizadas, receitas e  anúncios que, num passado recente, me fizeram perceber um mundo que não conhecia; de uma familiaridade de linguagens a lembrar-me que acabara de mergulhar no “little Portugal” - perímetro do cruzamento da Dundas e College com a Ossington.

Não há dúvida de que é nos países sujeitos ao rigor dos gélidos invernos que a natureza é muito mais eloquente nos anúncios da primavera. Em Portugal, por exemplo, onde é possível em dezembro ver o vermelho das rosas nos jardins, há muito que os rebentos da nova estação passaram de galhos a ramos, desabrochando em flor, para em menos de nada entrarem no ciclo dos frutos. As transformações vão-se fazendo muito mais cedo, ao longo de meses, pelo que não nos é possível experimentar sensações tão fortes como as que se vivem em Toronto. Destaque-se o culto dos jardins e de como toda a cidade se volta para a terra, mesmo quando confinada a uma pequena nesga a disputar espaço com o “drive way”. E as hortas, igualmente bem tratadas, à espera que rompam do solo as hastes dos tomateiros, dos pepinos, dos pimentos, do feijão verde, das ervilhas, para que as estacas os orientem no caminho para o alto. Mais rasteiras, ficam as alfaces e outras verduras, a comporem o ramalhete do ecologicamente equilibrado e saudável.

Caminhar pelas áreas residenciais de Toronto, nesta altura do ano, é assistir ao chamamento que transforma cada citadino num camponês. Na forma como esgravata a terra e a revigora nas braçadas com que a envolve e revolve, alinha os canteiros, delineia sebes, semeia e planta, ajeita um vaso ou acaricia uma folha. Em cada gesto, um diálogo permanente com a força telúrica da natureza, onde não faltam as pedras a estabelecer a harmonia que se quer completa. Por toda a cidade, na parte exterior das superfícies comerciais, há estufas a céu aberto: vasos e mais vasos de árvores em miniatura, plantas, flores e ramos à espera dos clientes que trazem o perfume da primavera à flor da pele. Nos corpos vestidos de roupas mais leves - ombros, braços e pernas à mostra -, depois da longa clausura imposta pelo frio.

É um ritual que, com maior ou menor intensidade, todos cumprem. E todos falam desta atividade como se a energia da terra lhes corresse como seiva pelas veias. Nota-se na postura mais direita do corpo, na ligeireza do caminhar, no sorriso que passa a morar no rosto dos que diariamente se cruzam para iniciar mais um quotidiano de trabalho, no movimento das ruas transformadas em solários, onde muitos buscam a energia luminosa para, à semelhança das plantas, a transformarem em energia química.

Os raios de sol são a batuta que cada ano dita uma renovada coreografia da Sagração da Primavera!